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Friday, March 20, 2009

Previsões de um encontro irremediável





J. – Oi!
G. – Oi!
J. – Tudo bem?
G. – Tudo. E aí? Como foi a viagem?
J. – Um pouco cansativa. Muito tempo de vôo. (na falta do que dizer e exalando timidez por todos os poros do meu corpo, eu largo esta merda. Desde quando um vôo Salvador-Curitiba é cansativo?)
G. – E aí? Animada para o réveillon?
J. – Sim! Muito! É a primeira vez que venho a Florianópolis. Passar o réveillon na praia, um sonho!
A conversa tem pausas. A timidez lacra minha voz. Eu não consigo dizer nada. Tudo o que penso parece estúpido.

Seguimos direto para o albergue.

J. – É. Bonito lugar! E perto da praia. Eu adoro praia!

(Mentira. Eu detesto praia. Moro em frente à praia e não freqüento praia. O sol é desestimulante. Aquela confluência de corpos chamuscados por um vermelho-paixão. Exalando sensualidade. Fora isso eu estou branca feito uma estátua de mármore. Nunca gostei de “pegar” um bronze. Aliás, nunca fiquei bronzeada. No máximo fico vermelha. Vermelho-camarão. Conhece?)

G. – Eu acho que tu vais gostar dos meus amigos. Tem a C. a Ge.
J. – Sim. Claro. Conheço todos por Orkut. Simpatizei-me muito com a Ge.
G. – E a C?
J. – Ela toca violão! Eu sempre quis tocar um instrumento. Mas não levo jeito. Você me disse que ela tem a capacidade de reunir a galera. Fazer com que todos fiquem mais entrosados.
G. – É! A C. é uma irmã p. mim.
J. – Sim. Eu sei. Você me disse.

(Eu não tenho nada contra a C. Sério! Mas pessoas extrovertidas demais me assustam. Sim. Eu nem conheço a garota. E sempre me surpreendo com as pessoas. Mas eu sou ciumenta. Meu horóscopo chinês é o macaco-martelo. Ou macaco outra coisa? Ouvi isso dia destes de um astrólogo guru hippie/ avarento que certa vez levei para São Paulo e que me deu o maior calote)

(Tenho vontade de vomitar por meio de verborragias toda a ansiedade que senti durante estes dias. O medo. Expor todas as minhas carências. Dizer que me masturbava pensando nela. Tenho vontade de comê-la no exato momento em que nos encontrarmos)

J. – Eu acho que vou gostar de Florianópolis. Conheço Porto Alegre e Curitiba. Mas esta é a primeira vez que venho a Floripa.
G. – Sim. Tu vais gostar sim! É um lugar lindo. Já te disse isso pelo MSN.

J. – É. Tínhamos longas conversas pelo MSN.

(Internet. O sonho de consumo sexual-afetivo concretizado através de corpos-palavras. Como eu a amei durante todo este tempo.)

J. – Você é ainda mais bonita pessoalmente que pela web cam.

(Neste momento meu rosto fica rubro e eu dou um meio sorriso sem graça. Sorriso de gente tímida.)

G. – E o filme. Tu trouxeste?

J. – O diretor. Ele não me deixou trazer o filme porque tem a intenção de inscrevê-lo em alguns festivais. Não quer que o filme seja divulgado antes disso. Uma pena! Queria tanto te mostrar.

G. – Poxa! Uma pena mesmo!

(Encontro os amigos dela! A minha intuição diz que eu vou gostar mais da Ge.
Talvez porque ela tenha um instinto maternal em relação à G. A Ge se preocupa com a G. Eu gosto de amigos que se preocupam. Não que os outros não se preocupem. Mas não os conheço. Pelo menos a G. nunca me falou muito deles!)

A conversa flui!

Alguém: Quer dizer que tu és baiana hein?

J. – É. Sou.

Alguém: Mas tu não tens sotaque.

J. – Pois é. Sabe-se lá por que!

(Provavelmente alguém deve pensar que eu tenho vergonha do sotaque dos baianos. Talvez seja isso. Mas o fato é que eu gosto de línguas desde criança Sou muito “membrana plasmática”. Absorvo sotaques e atmosferas e hábitos com muita facilidade. Não sou nada barrista! Tenho que admitir! Mas o que é que nós baianos estamos vendendo p. o resto do Brasil? Música de baixa qualidade “música-pagode-baixaria”. Tudo misturado. No fundo com o mesmo refrão: Eu “dou” e tu me “dá” também. É. Infelizmente a era tropicália e bossa - João Gilberto é coisa do passado. E agora o Caetano tentando cantar Nirvana. Peloamordedeus!)

Alguém: Tu trabalhas com cinema?

J. –Fiz um filme apenas. Não trabalho com cinema.


Alguém: E do que se trata o filme?

(Esta é a pergunta mais difícil. Mas vamos lá!

(Sóbria eu diria que se trata de um triângulo amoroso que envolve três personagens. Um hetero que se apaixona por um gay e que mantém uma relação destrutiva com uma mulher. Bêbada eu diria: Eu entrei no filme quando o roteiro já estava pronto. O filme se resumia a uma história de amor entre dois homens que terminava em tragédia com a morte de um deles. Durante a produção do filme fui dando alguns palpites ao diretor. Acabei assumindo a função “voz off”. Transformei o personagem assassinado no narrador em off. Tentei ao máximo não planificá-lo. Problematizá-lo e fazer com que ele transitasse com total liberdade de pensamento por entre todos os ambientes. Inclusive invadindo o pensamento dos outros dois personagens da trama.)


Alguém: Parece interessante. Pena que tu não trouxeste!

J. - Pois é. Cinema tem destas coisas!

(Cinema é na verdade uma puta feira de vaidades. Cada um querendo salvaguardar seu ego. Quanto mais inflado o ego de uma pessoa que trabalha com cinema, mais ele se sente um novo Lukas Moodysoon.)

G. - (Linda. Observando a conversa)
Tu pensas em passar quantos dias aqui?
J. – Não sei. Estou vendo aí! (típica resposta de quem já está morrendo de amores e que gostaria de passar a eternidade ao lado dela)

Preparativos para o réveillon

Por etapas:
1) Escolher a roupa. Nada que marque minha cintura e revele as gordurentas que eu vou tentar esconder. Claro!
2) Maquiagem: Etapa mais difícil! Delineador? Nem pensar! Há dois meses R. passa o delineador em mim e eu não aprendo a usar aquilo! Afinal, delineador é tinta! É difícil. E eu tenho uma péssima habilidade motora.
3) Aguardar G. no albergue? Será que ela vai me buscar no albergue ou eu vou ter que ir até a praia ao encontro deles?
4) Caso isso aconteça: Ligar antecipadamente p. G. marcando um local de encontro. Ou. Construir um mapa que me faça chegar exatamente ao local onde eles se encontram.

(Aqui nós temos o hábito de ensinar as coisas de forma aleatória. Sem muitas explicações. Lá eles ensinam geralmente usando as palavras: Tu segue reto! Ou. Anda mais duas quadras! Minha cabeça fica zonza com estas explicações. Vai ser o jeito perguntar a no mínimo umas dez pessoas. Minha memória recente não é das melhores.)

Réveillon:

Sóbria:

Vou ficar calada que nem um túmulo e quando as pessoas perguntarem por que eu sou assim, tão calada, eu respondo: Gosto de observar. Este é meu jeito.

Bêbada: Vou tentar interagir com as pessoas e tentar ficar ao máximo perto da G. Vou tentar seduzi-la sem fazer cara de cachorro pidão! Isso não funciona! Vou ser gentil. Sem exageros.

Muito bêbada:
Vou começar a lembrar dos meninos e procurar um cartão p. ligar p. eles desejando feliz ano novo e dizer que estou morrendo de saudades.

Ai! Como eu to ansiosa!
Não vejo à hora de embarcar de vez p. Floripa.
E este rivotril que não faz efeito!
Merda!
Mas eu te amo G.!

A separação também faz parte de uma história de amor?




Meu coração pesava dentro de mim. Durante dias fiquei prostrada numa cama à sua espera, com a íntima certeza de que ela iria voltar, mas tudo o que eu via pela janela era o carro-preto da mulher de trinta. A mulher de trinta com cara de quarenta. A mulher de trinta com cara de quarenta e a menininha de vinte e cinco estavam juntas. Eu não conseguia acreditar nisso. Vedei meus olhos e comecei a acreditar apenas na minha fantasia. A fantasia. O condão de ouro. O “arco-íris” urbano que eu havia criado, com cores que em nada se assemelhavam ao escuro-real daquele quarto pequeno, me dizia que o universo era amplo, e no meu universo, ela era a minha noiva fantasma.

Quando o real se mostra opressivo, tal qual o beijo de um devasso, você aciona seu mecanismo de autodefesa criando uma sub-realidade, e passa a acreditar nela.

Eu e a angústia. Dormíamos abraçadas, à espera da noiva-fantasma.
Um, dois, três dias....

O tédio é o sentimento mais moderno que existe.
Finalmente a noiva fantasma aparece.

Noiva fantasma- Eu acho que a gente precisa conversar.

Ela tinha me abandonado por três dias e ainda se mostrava disposta a uma conversa. Tinha chegado com um perfume diferente. Os cabelos levemente molhados. O carro preto com a mulher de trinta com cara de quarenta estava na casa ao lado. Parado. No rosto um leve sorriso de sarcasmo.

J. - Olha, G, você não aparece em casa. Eu estou preocupada. Não quero te causar nenhum incômodo. Eu estou indo embora com os meninos, vamos para um albergue.

Noiva fantasma- Espera. Espera! Nós precisamos conversar.

J. - Você ficou com outra pessoa no réveillon. Certo?

Noiva fantasma- Sim!

J. - É. Eu percebi. Por isso que eu fui embora. Não precisava ficar ali para presenciar aquilo.
Noiva fantasma- É. Eu sei!

Noiva fantasma- Eu sou muito má quando eu não gosto.

Neste momento meu rosto assumiu uma expressão de dor tão profunda que eu não consegui vislumbrar nada além do imenso vazio que eu sentia. A minha visão se voltou para dentro e meu coração se transformou em uma víscera morta que palpitava aleatoriamente, em descompasso. Eu conseguia sentir o som do meu coração, era como se ele tivesse ganhado vida própria. O corpo palavra das longas conversas pela web tinha se transformado em um corpo-víscera mórbida. Eu era só coração.

Mas existiram as conversas no posto de gasolina próximo a casa dela. O humanismo. A dor ao ver o mendigo na calçada. O desejo momentâneo em estar comigo. O sorriso franco. O olhar de vidro. Tudo se misturou e explodiu dentro de mim. Eu era ela e era tudo o que ela sentia. Era o que ela sentia e o que eu sentia. Mas eu senti. Ela? Será que ela sentiu também?

J – A coisa não deu certo, claro. G ficou constrangida. J, decepcionada.

Noiva fantasma- Me doeu muito te ver naquele estado durante o réveillon, ver que você não conseguia interagir com as pessoas e não conseguir te abraçar.

J - Sofrendo bastante, vivendo, sangrando, e amando. O mito do artista sofrido parecia calar fundo no meu coração. Eu estava perdida!

Há pessoas que nascem e morrem sem nunca ter sentido espasmos de angústia.
Há pessoas que passam pela vida sem nunca ter chorado ou sentido. Elas morrem ou perdem o visgo muito cedo.
Quantas conversas. Quantas palavras não ditas. Quanto sentimento dilacerado, perdido nos trilhos de uma dor sem fim.

Uma nuvem preta me acompanhava. Uma nuvem de melancolia, aonde quer que eu fosse.
Acho que vou morrer amando.

A separação também faz parte de uma história de amor!




Era como se a nossa história não houvesse sido escrita.
“Entre a palavra e o ato existe a sombra”.

Eu estava “andando sobre pregos”. Fiel apenas a minha dor, presa em seu quarto, presa às suas coisas. Por três dias fiquei ali, a mesma roupa, o mesmo “olhar ferido”. Eu estava atravessada por uma nuvem de lágrimas.

Um simples toque abalaria toda a minha frágil construção. Como se soerguer depois de ter sido machucada até a exaustão?

O coração pesa quando se está sofrendo.

Em segundos tudo estava desfeito. Nada do que tínhamos planejado se tornou real.
Na minha cabeça existia apenas a certeza de um encontro que ainda estava por vir. Eu negava toda e qualquer possibilidade de aceitação do real. O real doía em proporções inimagináveis.

Nos dedos tinha apenas um esmalte preto desbotado. Andava pelas ruas como um cão faminto e desgraçado. Um cão contaminado por uma doença que afligia todos os sentidos. Eu estava paralisada. A dor do desencontro me paralisou. A dor da traição me despertou a pior de todas as sensações. A sensação de que só a morte calaria profundo minha tristeza.

O olhar dela era prego crivado em minha mente. Um olhar que me atraía como um imã para a confusão. Um olhar que dizia verdades que eu jamais ouviria.

O que ela falava não me interessava. Interessava-me seu olhar, apenas seu olhar, um portal de verdades que dissolviam a dor que eu sentia. Verdades, ou mentiras brancas?

Eu a esperei. Por três dias perdi todo e qualquer resquício de amor próprio. Iludi-me como uma idiota, uma retardada com idade emocional de 6 anos. Enquanto a “roda da vida” girava, enquanto o mundo girava, eu estava em seu quarto. A minha roda estava parada. Enquanto as pessoas transitavam pelas calçadas e pela areia das praias eu me refugiava em um quarto escuro, em uma roda que não se movia. Eu estava presa a minha dor. Eu e a angústia, unidas como irmãs siamesas.

Pateta. Palhaça. Em busca de um verdadeiro amor.

O olhar era o único componente vivo do corpo dela. O seu olhar era o corpo vivo que incansavelmente repetia: O amor mata! O amor mata!
E tudo o que eu buscava era a leveza de um sorriso franco!


Meus pensamentos estavam embaralhados, um cartel de cartas confusas a pontuar minha dor viva. A felicidade é rara quando se está sofrendo!

Por quê se manter na roda, a roda que gira, quando tudo o que você precisa é um contato tátil com alguém que ama?

Por três dias fiquei em sua cama. Deitada, objeto imóvel. Fiquei em seu quarto, sentindo sua presença, sua presença invisível, remoendo a certeza de um encontro que não se realizou.
Completamente cega. O mito do amor romântico calou profundo em mim. Cega sou um cão faminto, bicho solto que anda pelas ruas com um olhar ferido.

" E de repente sua boca procurou a minha, intensa, veemente, a língua penetrando por entre meus dentes, os braços feito ferro a me prender"



Esta noite vi G: D e eu abríamos caminho na enxurrada humana para sair do cinema, ela ia pelo outro lado de jaqueta preta. Mal a reconheci, maquiada, de olhos abatidos. Mas bela. “Andei procurando você por toda a parte”, falei, “G, telefone, escreva para mim”. Ela sorriu quase como a G. que eu conhecera, antes de sumir. Sabia que jamais teria uma amante assim como ela. Então saí de vestido branco, casaco branco, e me odiei pela hipocrisia. Adoro G. Tive outras amantes, eu sei. Algumas engraçadas. Diversão histérica. G. sou eu, o que eu seria se tivesse nascido numa família gaúcha de Novo Hamburgo. Significa mais para mim do que todas as moças graciosas e artificiais que posso conhecer. Ela é rude, dúbia. Talvez seja um dos meus egos. Talvez eu precise de alguém que jamais se torne minha rival.

Postagem sem título

Ela estava em meu quarto. Minha mãe estava em meu quarto. Ela não tinha idéia do que tinha acontecido comigo. Mas estava ali. Tagarelando sem cessar. Não sabia que eu tinha chorado “sem” lágrimas antes de dormir. Não sabia que o que restava era uma cama de ferro. Dura e áspera. Não tinha idéia de como eu estava me sentindo. Não conseguia ver que os médicos tinham feito minhas lágrimas secarem.

--- Você está magra! Quer dizer, não engordou muito!

Ahhhhhh! A reabilitação tinha me deixado gorda. Eu estava imensa. Como não ver isso?

Ansiolíticos engordam! Como ela era estúpida em achar que eu não tinha consciência disso. Meses em uma clínica tomando doses cavalares de ansiolíticos. Eu estava imensa! Uma vaca gorda que não conseguia enxergar a própria vagina. Mas minha mãe estava ali. Escondendo tudo. Escondendo meus traumas. Escondendo seus traumas. Tentando esquecer que eu tinha mentido em sua cara. Que eu tinha roubado seu dinheiro inúmeras vezes. Tentando esquecer os meus porres homéricos. Os cheques voadores. Os telefonemas anônimos. As namoradas anônimas. Os telefonemas das namoradas que eu tinha que manter no anonimato.

Eu era uma estranha para ela. Para todos eles. Eles e seu mundinho de julgamentos. Sempre desconfiados. Sempre paranóicos.

Aquela diversão histérica me incomodava. Eu não estava feliz em voltar para casa. Eu queria me manter invisível. Mas todos vinham me cumprimentar por estar “começando de novo”.

Quantas vezes terei que “começar de novo”?

---- Mãe, onde é a parte da mesa onde ficam os perdedores?


Putz! Eu não queria “recomeçar”! Não estava disposta a ter uma nova chance. Não queria ser parabenizada por um recomeço que eu não conseguia enxergar. Meses em um manicômio. Meses em uma cela cheia de lunáticos e eu tinha que demonstrar um equilíbrio instantâneo. Não! Eu continuava desequilibrada. E não queria forçar um aparente equilíbrio.

Meu mundo é uma ostra.

---- Okay. Vocês venceram! Vou tatuar “Madre Tereza de Calcutá” na testa para vocês! Satisfeitos?

---- Que mesa linda! Que jantar lindo! Vamos todos sorrir ao posar para as fotos do natal, okay? Precisamos destas recordações. Colocá-las em um álbum lindamente ornamentado.

Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei.

Sim. Eu não posso considerar a minha vida com curiosidade subjetiva o tempo inteiro. Tenho de viver a minha vida. Ela é a única que terei. Mas como viver a minha vida neste baile de máscaras. Neste “barco de luxo” naufragado?

----- Ah! Vocês não têm idéia de como era solitário viver naquela cela enquanto todos voltavam para o seu mundinho ordinário!

----- Você acha que o seu sofrimento é a coisa mais importante do mundo! Ah! Como você evoluiu no seu sofrimento!

----- Ahhhhhhh! Quem disse que eu penso desta forma! Ahhhh! Não! Eu não evoluí no meu sofrimento. Continuo amando. Sofrendo. Sangrando.

----- Eu quero sangrar até secar. Entendeu? E não estou pedindo para serem “leais” ao meu sofrimento. Não sofro por modismo. Sofro porque não saberia viver de outra forma. Algumas pessoas nascem com esta insígnia. É letal. Eu sei. É genético. Não sei. Sei que está em mim. Esta dor maldita está em mim. Esta angústia fedida está em mim e eu simplesmente não sei como me livrar dela.

----- Você nunca está feliz, mãe. Ao menos que eu esteja em algum tipo de situação desesperadora. Você não sabe o que fazer comigo ao menos que eu esteja em crise.

----- As pessoas te alertaram mãe. Eu era uma drogada. Uma louca viciada em drogas. Eu era uma chapada que vivia fora da realidade. Será que você não notava que os frascos de perfume que eu borrifava eram para esconder o cheiro da maconha?

----- Mãe, nós somos crucificados pelas próprias limitações. Nossas escolhas cegas não podem ser mudadas. Tornam-se irrevogáveis. Você teve suas chances. Não soube aproveitá-las. Chafurdada no “pecado original”! Mãe, eu perdi toda a alegria engaiolada neste quarto. Neste quarto minha dor crônica de viver se torna mais suave. Neste quarto eu sou meio-resolvida. Meio-desesperada. Lá fora os pensamentos me rondam como demônios. Cada pensamento é um inferno. Mãe, eu só quero voltar para casa. Eu só quero retornar ao útero. Eu só quero ver o mundo bater uma porta atrás da outra na minha cara e me manter anestesiada.

----- Eu vou ligar para sua médica. Ela precisa saber o que está acontecendo.

----- Todos na casa estão me vendo como se eu fosse uma visitante sociopata.
O que vocês querem que eu faça? Ponha fogo na casa?

----- Adoraria quebrar sua empáfia!

----- Who I have to be now! É verdade. Eu fui um pesadelo. Você foi uma santa. Mas desculpa. Mesmo assim eu não estou satisfeita em estar aqui
com vocês.