
A escrita foi sempre aquela que acreditou em mim, que me escutou, me executou e me calou.
Foi através dela que me descobri mulher. Legendava em meus diários a inexplicável vida cotidiana. A incompreensão da doença, da morte e do amor. Rabiscava nas paredes, nos cadernos e nas memórias partes de uma história que construía com o passar dos dias.
Meu pai foi um grande político de uma pequena cidade gaúcha chamada Campo Bom, perto de Porto Alegre. No meu batizado um verdadeiro comício foi formado. A pequena loirinha de olhos verdes e sobrancelhas pretas chegara para iluminar a família Borges. Mas como as coisas nem sempre dão certo...
Fui a quarta filha a nascer. A ultima de quatro mulheres, única a nascer em hospital, todas as outras foram de parteira.
Mamãe foi uma mulher invejável. Loira de olhos azuis. Sofreu uma grave seqüela no meu parto — um rim secou — e ela ficou dezessete anos fazendo hemodiálise. Passei minha infância acompanhando-a em hospitais. O hospital era meu livro preferido, aprendi tanto que as aulas que perdia não me faziam falta. A vida não estava numa sala de aula e a morte também não estava num hospital.
Seis anos após meu nascimento papai não agüentou mais o tranco e acabou falecendo. Ficamos nós, 5 mulheres a espera de um maestro.
Mamãe reativou as forças, cuidou de mim e eu dela. Fomos amigas, colegas e parceiras do destino. Seguramos a barra e crescemos juntas.
Encontrava minha felicidade num pequeno circo que tinha na esquina da minha rua. Adorava observar a vida através dos palhaços, aquela melancolia me fascinava. Era minha leitura diária..
Aos nove anos comecei a trabalhar. Afinal, depois que papai faleceu voltamos a ser uma família bem humilde. Uma família feliz, mas que nem sempre tinha tudo. Minha felicidade consistia em ir para o quarto vestir roupas, me maquiar e fazer meu circo em casa mesmo e deixar o pessoal louco de tanto dar risada. Era uma verdadeira palhaça. Dos meus olhos lágrimas escorriam ao ver mamãe sorrir tanto. Depois de algum tempo comecei a pintar esculturas de gesso e as vendia na praça da minha cidade. Mamãe não ficou muito contente, afinal eu era uma criança...
Apesar de ter minhas bonecas, meus carrinhos, minha casinha, o mundo dos adultos me fascinava. E eu criava sempre meus shows através das histórias que ouvia. Dizia para mim mesma que era hora de refletir, descer das árvores, afinal, eu era uma moça e não um guri.
Enfim, aos doze já estudava em escola estadual, pois nossa situação era cada vez mais difícil. As contas de casa, os medicamentos que mamãe tinha que tomar. Nesta época as escolas estaduais entraram em greve. Então, decidi por livre e espontânea vontade fazer minha carteira de trabalho.
Fiz a carteira e arrumei emprego numa fábrica de calçados.
Cheguei em casa pulando de alegria. Queria muito poder mudar a nossa situação. Lembro que minhas pernas eram dois gambitos de tão magrinha e minhas tias me davam óleo de fígado de bacalhau para ver se eu desenvolvia. “Tadinha da C., tão magrinha.” Acabei trabalhando na fábrica dois meses, que foi o tempo exato das aulas voltarem. E assim não parei, estudava de manhã e trabalhava à tarde, agora em uma boutique onde fiquei por dois anos.
Nesse trajeto minha mãe foi ficando mais fraca e eu na batalha tentando descobrir o que fazer para ajudá-la. Curá-la? Impossível. Desta forma só me restava saborear os últimos dias ao seu lado tentando fazê-la mais feliz.
Segui minha mãe, que era prenda de CTG (centro de tradições gaúchas). Onde tivesse música eu arrasava de tanto dançar. Sempre fui muito boa dançarina e boa de papo. Mamãe costumava dizer que eu traria seu sorriso de volta, brilhando nos palcos da vida. Sempre soube que dentro de mim a artista existia constantemente e que um dia eu iria para bem longe resgatar tudo ou achar a arte de alguma forma em mim.
Acho que por isso sempre tive a certeza que o palco seria meu companheiro neste espetáculo da vida.
Quando estava com dezessete, mamãe faleceu. Achei que minha peça tinha acabado, mas o espetáculo acabara de começar. Coloquei tudo dentro de uma mala, caminhei sete quadras, sem maestro, sem orquestra, sozinha e silenciosa.
Saudades
Mamãe serena como sempre
Conversa comigo, desabafa sua dor
Sua tristeza tem cheiro
Faz cinco anos, parece que foi ontem
Choro como uma criança
Meu coração fica apertado
Lembro-me nitidamente de seus olhos azuis transparentes
E nós duas sentadas na cama conversando
Ela desabafando, me contando seus amores, suas alegrias,
Suas tristezas,
Seus vestidos de festa, suas paixões não correspondidas
Acordar na madrugada, a insônia da dor
E eu virada para o lado fingindo estar dormindo
Escutando cada palavra dela, chamando sua mãezinha para vir buscá-la
Sua dor foi imensa
As preocupações de deixar seus netos abandonados pela vida
E a certeza de um amanhã
Coragem de uma lutadora
Sua vida caminhava pelas filhas, pelos netos, pelo pai
Não havia mais carne, seu peso não chegava a 40 kilos
Mas suas pernas dirigiam-se todos os dias à mesa junto às filhas
Mesmo que o pão e o leite faltassem, a farinha existia
Mesmo que seu tão sonhado banquete não existisse no Natal
Na cama havia um champanhe
Nosso último vinho foi tomado
Ah, lembro-me tão bem que o vinho foi como seu sangue para mim
Não tinha mais forças para caminhar
Suas pernas estavam inutilizadas
Mas seu coração permanecia pulsante
Ela sentada na cama, eu no chão
Pediu um vinho estava com vontade
Quatro dias antes bebemos e brindamos sua partida
Foi lindo. Foi triste, inesquecível
Semana sofrida, algo estava para acontecer
Ao seu pedido não fui trabalhar pela manhã
Ajudei a trocar-se, maquiar-se, vaidosa até seu último momento
Suas palavras sufocadas
Onze e meia chegamos ao hospital
Rotineira filtração de sangue
Foi mamãe com cadeiras de rodas acenando
Ela me chamava
Não fui
Dor
Queria apenas mostrar sua filha aos novos médicos
Orgulho de mãe, desobediência de filha
Ao meio dia sua alma foi filtrada deste mundo
No seu caixão
Seu rosto estava tão bem, parecia que sorria
Foi como uma estrela para um lugar indefinido
Enfim ela foi em paz, para sua mãe, para seu marido...
Deixando a saudade de uma bela mulher
Deixando sua coragem, sua alegria,
Suas histórias, suas esperanças
E eu, a cama, o colchão, as madrugadas, os sonhos
Mãe
Mãezinha
Amiga
Companheira
Minha estrada