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Tuesday, November 17, 2009

Crack-Anne



Ela morava em um quarto onde não cabia um homem adulto deitado no chão. Tinha TV a cabo, forno de microondas, geladeira, fogão, e uma filha, a Anne. Se você quisesse encontrá-la bastava ir até a Av. Atlântica, que com certeza ela estaria lá. Bem, ela não era capaz de ficar com uma pessoa só, por isso freqüentava assiduamente a Av. Atlântica. O horário em que você poderia encontrá-la, por volta das 00h00min horas. Provavelmente ela estaria rodeada de amigas, e de homens interessados em algum tipo de diversão.
1,2,3, dezenas de ligações. Os clientes pagavam o táxi até algum hotel de luxo, e lá tinham uma noite de prazer inesquecível.
A Júlia era realmente linda. A Júlia é destas garotas que sempre tiveram consciência de que era pobre. E a vida tinha lhe oferecido apenas duas opções: Ou sofreria como um cão abandonado, ou sairia por aí se divertindo dentro do possível e comendo pessoas. Nada de canibalismo aqui: estou falando de sexo. Sentir algo que não seja dor. É como se a sua frente ela conseguisse ver uma cidade inteira com as pernas abertas. E o fato de às vezes não ter um puto no bolso não fazia diferença, ela sempre dava um jeito de arrumar dinheiro.
Give me a Love that won´t give me troubles.
Certo dia ela resolveu fazer uma lista das coisas que ela jamais deveria fazer: 1. Jamais voltar para Curitiba. Voltar para aquela cidade poderia lhe trazer um sofrimento interminável. Iria se lembrar que poderia andar de mãos dadas com a Anne, iria querer acordar abraçada à sua filha, sentir o cheiro dela. Iria se lembrar que amor dói que amor sempre vai doer. Que amor mata!
Acordou e foi tomar café. Não, café é jeito de falar. Na verdade era leite em pó com Nescau. Ela não tomava leite, tinha nojo. E então se lembrou da Anne, se lembrou que a Anne reclamava quando ela sacudia a pipoca, e o queijo ia para o fundo, e que Anne sempre ria quando ela usava tomara que caia, dizia ser a peça mais engraçada do seu guarda roupa.
A Júlia chorou. Chorou muito.
It kills her. Just because it can´t be erased.
Quando ela andava pelo Rio, uma maravilhosa poluição visual. Pedras e favelas, e pessoas brotando de todos os lados. Pessoas feias, e lindas. Parte da paisagem.
A Júlia era como o Rio de Janeiro. Uma mulata gostosa que fode tão bem a ponto de deixar os homens todos loucos, e eles largarem suas mulheres e filhos, e empregos, e passarem a vida tomando caipirinha e indo a praia todas as manhãs.

“A land Love you give me I can´t take you.
Anne, you fill me up so much when you touch me.
But I can´t stay here, I have to go to my space.
People talk to me.
Try to play me a tune.
Sell me cocaine.
But I can´t take you, I have to go to my space.”
Era uma festa estranha, com pessoas que ela desconhecia. Então lhe ofereceram cocaína. Depois de duas semanas Júlia estava apaixonada por crack, irremediável e irresistivelmente. Flertaram loucamente. Seu sensor de auto-sabotagem apitou, e ela não se importou, estragou tudo. Que bela trepada, o mundo girando, as ondas batendo na beira da praia.
Dezessete anos, seu primeiro amor, aquele que sempre dói muito, e que a fez chorar e emagrecer dez quilos, e perder a dignidade, e ficar magrinha e doente, e sofrendo debaixo da mesa do seu quarto.
Enquanto tocava Cazuza no rádio de um bar decadente, Júlia trepava loucamente, ela e seu mais novo amante, o crack; viciante, demoníaca, a flor da montanha, que tinha gosto de metanol, com borracha queimada, e asfalto e óleo. O aviso NÃO USE TUDO, veio mais tarde, gritado em uníssono por Anne, que suplicava a mãe que não saísse até ao central park a procura do seu amante. E ela no banco da praça, chorando, e escondendo a cara no colo da filha, porque sabia que tinha estragado tudo, e que não havia volta, era tarde demais, ela era uma idiota, e tinha a mais plena consciência disso.
Anne a amava em uma contradição de amor aos gritos e tapas que não podem ser dados em um moribundo. O que a Anne queria era que o coração de Júlia não parasse, mesmo quando todos os seus órgãos estivessem podres, o seu coração ainda iria bater, por que Anne desejava isso. Para ela o coração da sua mãe deveria se recusar a parar, por que era ali que estava toda a sua vida. Coração, mesmo com suas mucosas nasais transformadas em carne de sol.
Numa noite estranha de Júlio, quando em Curitiba fazia um frio de doer os ossos, Júlia recebe um telefonema de uma garota que trabalhava em uma revista e que tinha visto em um jornal um anúncio de adoção. Muitos cigarros, mãos suando, o coração batia incansavelmente. A moça disse que queria conhecer a criança, queria agendar uma visita. Júlia pronunciou palavras sem sentido, estava nervosa, se enrolou, mas disse que a moça poderia passar às 17h00min da tarde em sua casa.
Quando a moça chegou, a sua vontade era de mandar aquele seu ar blasé no cú, mas se conteve. Ela sabia que não era exatamente o que a Anne precisava.
Anne acabou indo morar em São Paulo. Em São Paulo não tem céu. Mas quando ela vai pra o Rio, olha pra o céu e vê estrelinhas, e a lua sorrindo. Anne sabe que uma daquelas estrelinhas é a Júlia, e que ela está sorrindo pra ela.

Friday, November 13, 2009

“Dear diary, this is another day in my life. Once upon a time there was a pretty girl who lived in a box, and everybody loved her”


Conheci uma garota, ou melhor, uma mulherzinha, destas que usam maquiagem, salto agulha, piercing no umbigo e esmalte com glitter, mas uma mulherzinha com “bolas”, destas que usam anfetamina para emagrecer. Cloridrato de Anfepramona, vulgo inibex, uma dádiva na vida de pessoas que não gostam de dormir ou neurótico depressivas sem dinheiro para comer. Todas as alternativas estão corretas.
Suspiro, Love is Suicide.
Há um mês eu tinha amigos fofos e que gostam do Franz Ferdinand, agora estou no cú do mundo, uma cidade suja, com pessoas desinteressantes e que servem “vódega”, e uma cerveja barata, mas gelada. Aqui nos embriagamos fácil. Jogamos bilhar, falamos sobre futebol, nos reunimos nos finais de semana para se jogar da “garganta do diabo”, o lugar mais alto que já vi, no topo do mundo.
Sou uma mulher de extremos, não sei ficar no meio termo, só sei andar em linha reta se for em cima de um muro de três metros. Tentar explicar? Não adiantaria, ninguém entenderia, nem eu.
Constantemente tenho ataques de “quero ir pra casa”, mas não adiantaria, são inúteis, e o que dá pra fazer é encher a cara e voltar pra casa como um cão cambaleando, ouvir meu Radiohead, e abraçar meu gato, meu Christian, o amor da minha vida, meu companheiro inseparável. Em momentos de depressão intensa, quando penso em me jogar do quadragésimo andar e virar uma panqueca gosmenta no meio do asfalto, coloco Cohen no volume mais alto (posso estar fodida e sem dinheiro, mas rock é de graça. Então, para os fodidos, rock e miojo. Mas miojo light, porque não quero virar uma pêra. Já basta ser pobre, se também inventar de ser gorda vai ser foda.) e abraço meu Christian desesperadamente. Sinto os arranhões de carinho que ele faz pelo meu corpo, dormimos abraçadinhos como dois namorados apaixonados, e sinto que aquele velho bordão; “nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres” é a coisa mais valiosa que já ouvi.
J.G, 21 anos, largou a faculdade, gosta de rock, gatos, “vódega”, e está apaixonada pela mulherzinha mais linda do planeta, por enquanto é tudo o que vocês precisam saber.
Eu estava nesta festa, e esta festa estava cheia de gente estrategicamente descabelada e suando a “cheetos”. Argh! E eu estava lá no cantinho, com minha “vódega”, acho que já era o terceiro copo. Já tinha me esquecido o quanto o amor dói, amor vai sempre doer. Às vezes tenho ciúmes do Ian Curtis, ele sofria melhor do que eu.
Vocês já viram Spirit? O personagem da morte é uma mulher lindíssima, que aparece em câmera lenta, numa imagem embaçada. Sinceramente, com uma mulher daquelas eu chamaria o capeta pra tomar “sexo na areia”, ou jurubeba com coca, e ainda lhe daria beijinhos na boca.
Meus olhos já estavam meio tortos por conta da “vódega”, mas de repente vejo aquela dádiva surgindo em minha frente. Ela vestia um vestido preto tomara que caia, e claro, estava com seu salto agulha e seu esmalte glitter, além de lindamente descabelada e bebendo cerveja.
Ah, vá lá J.G, ela está bêbada, não vai ser tão difícil assim.
A mulherzinha mais linda do planeta parecia ter saído de um filme dos anos 50, uma diva, a garota mais charmosa que eu já vi. Linda, linda, linda!
Vamos lá, bole uma estratégia. Suspirava a Sarah. Já falei pra vocês sobre a Sarah? A Sarah é a vadia mais sarcástica que eu já vi, ela e a Maricléia moram dentro de mim. A Sarah sempre me incentiva a bolar estratégias nestes momentos em que o coração parece ganhar vida própria e você só consegue balbuciar grunhidos estranhos, “oi, e aí? “Tudo bem”? “Como você se chama?”Affff, diz a Sarah, você já foi bem melhor que isso, esta é a cantada mais barata que eu já ouvi, vamos lá, fala que você acabou de chegar de Los Angeles e assinou um contrato milionário com uma produtora de filmes.
Mas a Maricléia ganha vida própria; “Oi, tudo bem, como você se chama”?
D. , e você?
J.G.
Você mora aqui mesmo?
Sim, há 17 anos.
Nossa muito tempo!
Bem, eu tenho 17 anos.
Como?
É, 17 aninho, e a mulherzinha mais linda do mundo me olha com uma cara de vadia experiente, fazendo meu coração fodido bater ainda mais forte.
Deus existe! Foda-se a pedofilia, fodam-se os engravatados, foda-se a justiça, a censura aos menores que querem tomar a primeira breja aos 12 anos e são proibidos, ao Frank Sinatra e aquela voz que exalta Nova York,.... argh, puta que pariu, sempre quis conhecer Nova York, a cidade mais foda do mundo, e aquele maldito do Frank exaltando a Meca dos artistas, dos loucos, com aquela voz maravilhosa, me fazendo roer as unhas de tanta inveja, fodam-se todos os homens com quem a mulherzinha mais linda do mundo já trepou, morte a todos eles, que sejam fuzilados e enterrados em algum cemitério desconhecido, onde se enterram indigentes sem família.Seria melhor mesmo se eles nunca tivessem existido.
Ela era a mulherzinha mais linda do planeta. Nada me faria ficar longe dela naquela noite, ou melhor, nada mais me faria ficar longe dela.
Sentença final! Processo concluso. Amor fulminante, destes que te fazem sentir um friozinho na barriga, e querer levar a musa dos anos 50 para um lugar melhor que aquele boteco nojento com gente nojenta fedendo a cheetos.
Oi? E aí, você curte o que?
Bem, eu adoro cinema, de literatura também. Gosto de rock, de gatos, de pular da garganta do diabo duas vezes por semana, de colocar a mochila nas costas e sair por aí sem destino.
Poxa, legal!
Surge um cara estranho que estava à procura da mulherzinha mais linda do planeta. Ele era uma mistura do Tyler Durden e do Corleone. O grandalhão me olha com um ar estranho, misterioso, e me oferece uma bebida.
O que você gosta de beber, gatinha?
Bem, eu bebo “vódega”.
Hahahahhaha, vódega?
Sim.
Ô R., traz uma “vódega” pra gatinha aqui, não gosto de deixar mulher de copo vazio.
Santo protetor dos desgraçados alcoólatras, o Tyler/Corleone tinha salvado minha noite, fora que ele tinha um ar misterioso que me fascinou desde o primeiro momento que o vi, era calado, e quando me olhava parecia que ia perfurar meus olhos e descobrir todos os meus pensamentos.
E então, você curte o que? Repete a mulherzinha mais linda do planeta, como se eu já não tivesse respondido antes.
Bem, eu curto...
Sim, eu sei, você já me disse que curte cinema, literatura, agora eu to te perguntando se você curte outra coisa, ahhaha! Olha, nós vamos ali à casa do P. “cheirar” e beber umas brejas, e aí, topas?
Anos sem cheirar nada, e aquela deusa resolve me dá um ultimato. Ou vai, ou não me ver nunca mais, foi mais ou menos isso que eu consegui absorver dos olhos dela. Puta que pariu, pensei. O que é que eu faço? Vou p. casa embriagada, ou cheiro todas com esta deusa, com esta vadia gostosa? Selamos amor eterno com o beijo da morte, ou nos despedimos agora mesmo?
Neste momento, não sei por que diabos me lembro do Hamlet. Recordo-me de uma professora de faculdade que dizia odiá-lo simplesmente por que ele era indeciso demais.
1, 2,3. Respiro fundo, tomo mais um gole de “vódega”, e resolvo partir com os dois pra casa do P.
Ele paga a conta do bar, e seguimos reto até sua casa, os três em uma moto que andava a no mínimo 100 km/h.
Ah, eu amo este cara!
Chegando lá tinha um nóia com um vidro de perfume querendo trocá-lo por uma pedrinha de pó.
Bem, o que é isso aí em tua mão nóia?
É um perfume francês que eu roubei da minha mãe.
E quanto custa esta porcaria?
300,00
E como é que você pode me garantir que esta porcaria custa tudo isso?
O nóia era esperto, sentou logo em frente ao computador, digitou o nome do perfume, e estavam lá, 300,00 reais.
Bem, vou te salvar. 5 pedrinhas de 10,00 por esta merda. Mas entra aí, cheira o bagulho aqui com a gente.
Pausa;
Sentamos-nos no sofá da casa do P. e com estes óculos enormes me sinto uma cientista social. Puta que pariu, não consigo relaxar!Ele despeja logo umas 5 carreirinhas de pó no centro da sala. A mulherzinha mais linda do planeta cheira duas de uma só vez. Peloamordedeus, minha deusa diabólica, não me olha assim, com este olhar fulminante, nos chamando pra ter uma noite de sexo selvagem.
O P. nos olha com aquele olhar misterioso, cabelo jogado na testa, aquele jeans que parece ele já deve ter usado umas quarenta vezes, e uma camiseta do Renato Russo. Nunca conheci um cara como o P. antes. Ele era dono da boca de fumo mais conhecida da cidade e nunca foi preso. A droga dele era a mais pura da região, a vontade que eu tinha era a de cheirar tanto pó até ver meu nariz sangrar. É eu gosto de sangue também, além de mulherzinhas lindas e vadias, e traficantes feios e esquisitos. O P. era magérrimo, feio e esquisito. Mas eu estava fascinada por ele, ou eu estava chapada demais p. perceber que ele era um cara comum, como qualquer outro.
Naquela etapa da noite eu não conseguia raciocinar mais, hahhahaha. Agora minha cabeça só pensava em uma coisa; sexo. Sexo gratuito, sexo por sexo, the modern age, a vadia da cientista social tinha finalmente ido embora e cedera lugar a mais nova vadia da cidade.
O P. recebeu um telefone e teve que fazer uma entrega de 5 gramas na casa de um ricaço veado que que tem o “aspirador de pó” mais potente que eu conheço. Odeio caras casados que comem veados e que pra se redimirem enchem as esposas com jóias e presentes caros.
Eu gosto de caras como o P. Nesta merda de vida, cheirar, fumar, beber, é muito mais interessante do que ter uma vidinha normal. Acordar às 06h: 00 da manhã, pegar um coletivo lotado, ir para o trabalho, geralmente um trabalhinho de merda em troca de um salário mínimo, voltar pra casa, sentar no sofá, esperar a esposa preparar bife e batatas fritas pra o jantar, e olhar para os filhos como se estes fossem extraterrestres que acabaram de decolar de uma nave espacial vinda de Plutão. Odeio gente normal, destas que começam trabalhando como caixa de banco e aspiram à gerência. E que ficam sonhando com uma promoção que nunca chega, e que envelhecem e morrem satisfeitos achando que foram excelentes pais de família, “homens da sociedade”. Peloamordedeus, não há nada mais deprimente que isso.
O P/Tyler sempre disse: This is your life. It doesn´t get any better than this.
Sim, P/Tyler Durden, nós somos mesmo a merda do mundo.
Depois que o P. saiu pra fazer a entrega do ricaço veado filho da puta, cheiramos mais pó, muito pó, e nos enfiamos no banheiro, nós, as duas vadias mais mulherzinhas do planeta.
Boca linda. Ela me pegou pela cintura. Você sabe tudo sobre uma mulher quando ela te pega pela cintura. Naquela hora eu queria ter uma cama King Size para fazer tudo com aquela mulher. Mas aquele quartinho do P. estrategicamente planejado para que empregadas não fizessem sexo de tão pequeno.., azar, eu estava com ela, e era isso o que importava. E foi na sala mesmo. E começou a voar roupa, e puta que pariu whatta a woman, uh!!!!!!!!!! Beijos, e muitos beijos e mãos, suores, Whatta a woman, uhhhhhhhh! A pussy da mulherzinha mais linda do planeta estava molhada, penetrável, e quentinha; pensei naquele mesmo instante no que fazer; queria chupá-la até não poder mais, colocar minha língua, ali mesmo, naquele quartinho fétido, apertadinho, até ela gozar na minha boca, até ela sentir o melhor orgasmo da vida dela. Mas ela me puxou pelo cabelo e disse: Agora eu estou no comando, abra as pernas! E ela enfiou o dedo em minha pussy com toda a força que eu esperava que ela tivesse me chamou de vadia, e disse que eu era uma puta gostosa! Puta prova de amor; amor é sexo, pensei.
Agora éramos duas vadias que trocavam juras de amor e que em troca de muita grana nos prostituíamos pra comprar pó, nós, as duas vadias mais gostosas deste cú de cidade.

Wednesday, September 09, 2009

Esta noite estou feia. Perdi toda a fé na minha capacidade de atração. E no animal fêmea esta é uma moléstia bem patética.


1. Se eu não pensasse seria muito mais feliz; se não tivesse órgãos sexuais não vacilaria à beira de um ataque de nervos e lágrimas o tempo todo.


2. Há tanta dor neste jogo de procurar um parceiro, de testar, tentar. E a gente se dá conta subitamente de ter esquecido que era só um jogo, e vai embora chorando.


3. Sim, fiquei enlevada com você, ainda estou. Ninguém jamais despertou tamanha intensidade de sensação física em mim. Afastei-a, pois não suportaria ser um capricho passageiro. Antes de entregar meu corpo, preciso entregar meus pensamentos, minha mente, meus sonhos. E você não queria saber de nada disso.



4. Quero tomar consciência de tudo que considerava favas contadas. Quando a gente sente que “aquilo” pode ser um adeus, a pancada é mais intensa. Preciso ter algo. Quero parar tudo, a monumental farsa grotesca inteira, antes que seja tarde demais. Mas escrever não parece facilitar muito as coisas. Os grandes homens são todos surdos. Quando se pega a mãe, símbolo infantil de segurança e correção, chorando desolada na cozinha, quando se olha para o irmão mais novo, alto, de olhos sonhadores, e pensa que todo seu potencial será podado quando ele chegar aos 20 anos, antes mesmo que ele tenha uma chance, isso bate fundo na gente.

Agora sei o que é solidão, acho. Momentânea solidão, pelo menos. Vem do fundo vago do ser, como uma doença no sangue espalhada pelo corpo, de modo que não se pode localizar a origem, o ponto de contágio.
Estou de volta ao meu quarto. Saudade é o nome dado ao sentimento aflitivo que me domina agora. Sozinha no quarto, entre dois mundos. Lá embaixo se encontra alguns transeuntes, ninguém que eu realmente conheça. Poderia descer com meia dúzia de um texto previamente decorado, tentar fazer alguns amigos. Mas não, ainda não. Nada de escapar de mim mergulhando em conversas artificiais. Melhor ficar aqui e penetrar mais fundo nesta solidão.
Eis-me aqui, portanto, em meu quarto. Não dá para me enganar e escapar a constatação brutal de que não importa quanto você se considera entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando a gente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio. Mas a massa fria entranhada no meu crânio raciocina e papagaia; “Penso, logo existo”, sussurrando que sempre chega o momento da virada, da ascensão, do galgar de um novo degrau. Por isso, aguardo. Para que serve a boa aparência? Garantir segurança temporária? De que adianta o cérebro? Para dizer apenas eu vi e compreendi? Ah, claro, eu me odeio pela incapacidade de descer até a rua e buscar consolo na companhia de estranhos. Eu me odeio por ter que ficar aqui sentada e ser castigada por não sei o que dentro de mim. Aqui estou um monte de recordações do passado e sonhos futuros reunidos num monte de carne razoavelmente atraente. Lembro-me do que esta carne já passou; sonho com o que passará. Registro aqui a ação dos nervos ópticos, da percepção sensorial. E penso: Sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e, no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial. Esta solidão diminuirá e desvanecerá, sem dúvida, quando amanhã eu mergulhar novamente nos cursos, na necessidade de estudar. Mas agora este falso objetivo foi suspenso e giro num vácuo temporário. Não há outro ser vivo na terra neste momento além de mim.
Meu deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das festas alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, para chocada com as palavras pronunciadas – são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente por tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo, mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante.

Saturday, September 05, 2009

I want to burn, even if I break myself. I live only for ecstasy. Nothing else effects me. Small doses, moderate loves- all these leave me cold. I like extravagance, heat... sexuality which bursts the thermometer! I am neurotic, perverted, destructive, fiery, dangerous- lava, inflammable, unrestrained. I feel like a jungle animal who is escaping captivity." - Anais Nin

Saturday, July 11, 2009




C. Do you remember “the shit” that happened to you as a child that makes you not want to trust people as an adult?
G.As long as I am concerned memories evanesce when we grow up. I have this blurry memory of my childhood

G. I think that both of us we sort of developed a different way to deal with our social-fucking life.
C. Yeah, I live by the code “I don´t do relationships”, but you….
G. I live by the code, “I idealize relationships”.
C. Why are you still looking for these stripper clubs?
G. Because when I am in there it’s my fucking choice. When I take off my top and I want to show my breasts, it’s my fucking choice. when I take off my pants and I show my pussy and then I stop when I want to stop and it makes me feel good because I am in charge. And it helps me remember all this childhood shit that happened to me. You know? And I have to.
C. You´re facing your demons head on and it´s something I have never done.
G. No, you just make it some other way.
C. You´re not alone, You have a family.
G. You are my family.
C. I admire you so much…, look at you…., look at your life. When you first came here you were just a “middle west girl” who knew nothing and now you are the great scriptwriter…, you changed your life through your writing…, your stories…, I just…. I just... I never found someone like you…, you´re my best friend…., I was always the one to give you support…and now…, that I feel that I ...., I just don´t know what to do. I feel lost.
G. I just have to face my demons by my own.

Sunday, June 21, 2009


J- You have seen the worst of me.
S- Yes.
J- And I nothing of you.
S- No.
S- But I like you.
S- I like you.
J- You´re my lost hope.
S- You don´t need a friend. You need a doctor.
S- You are so wrong.
S- But you have friends. You have a lot of friends. What do you offer your friends to make them so supportive? We have a professional relationship. I think we have a good relationship. But it’s professional. I feel your pain. But I can´t hold your life in my hands. You´ll be alright, You´re strong, I know you will be okay because I like you and you can´t like someone who doesn´t like themselves. The people I fear for are the ones I don´t like. Because they hate themselves so much they won´t let anyone else like them either. But I do like you. I will miss you. And I know you will be okay.


Saturday, June 13, 2009

A verdade nem sempre dói, não é mesmo?


Clara. Pronto, eis o nome dela. E o que posso dizer? Posso dizer que ela me procurou às nove da noite no sábado, que eu ainda sentia fraqueza após a extração dos dentes do siso naquela manhã. Posso dizer que saímos em dois casais para dançar no “Shebar”, que tomei cinco copos até o final da noite, de vodka pura, enquanto as outras bebiam cerveja. Mas não foi isso, nada disso. Foi assim que aconteceu. Vesti-me lentamente, alisando a roupa, passando perfume, cosméticos. Sei que me aprontei para uma noite de prazer sexual, tudo pensado nos mínimos detalhes. Eu não sairia com Clara de qualquer jeito, desejava aquela garota há dois anos. Existia todo um ritual, toda uma cerimônia composta de roupas, perfumes, massagens. Preparei-me um dia antes. Cabelo, unhas, esmalte preto, sei que ela gostava. Eu queria seduzi-la a qualquer custo.
Entramos no bar e nos sentamos. Sabia que seria eu a ter que superar o constrangimento inicial. Começamos a conversar.... sobre o enterro ao qual ela foi pela manhã, sobre o primo de vinte anos que quebrou a espinha e está paralítico pelo resto da vida, sobre a irmã que morreu de aids. “Meu deus, estamos mórbidos esta noite”, ela disse. Aí falamos de amenidades, como as palavras perdiam o sentido quando as repetíamos sem parar, como todos os garotos da faculdade pareciam iguais até a gente conhecê-los pessoalmente, e que detestávamos a idade que tínhamos.
Sempre me apavorei com aniversários, falei secamente. Não entendo, falei, como as pessoas conseguem ficar velhas. Secam por dentro. Quando somos jovens temos autoconfiança. Nem precisamos da religião.
“Por acaso você é católica”? Clara perguntou, como se isso fosse muito improvável.
“Não, e você?”
“Eu sou ela disse baixinho”
Conversamos mais, rimos mais, trocamos olhares oblíquos, seguimos com o roçar físico silencioso que torna tão deliciosa cada nova conquista. Pairava no ar o cheiro forte de feminilidade que criava o ambiente ideal para a minha existência. Havia algo em Clara naquela noite, um toque de seriedade, um magnetismo químico, que se encaixava em meu estado de espírito do jeito que duas peças se encaixam num quebra-cabeça infantil.
Na pista de dança ela me puxou para mais perto, meus seios firmes apertados contra os seus.

Foi como se um vinho quente fluísse através de mim, uma embriaguez elétrica. Ela encostou o rosto em meu cabelo, beijou minha face. “Não olhe para mim”, disse. Seu corpo quente firme contra o meu, conforme a música suave, erótica.
A dança é o prelúdio normal para uma noite de sexo, pensei. Tantas aulas de dança, quando somos pequenas demais para entender, e agora isso.
Clara olhou para mim, “acho melhor a gente sentar”. Fiz que não com a cabeça. “Não quer”? Ela disse. “E uma água, que tal”? Sentei-me e bebi a água que ela trouxe para mim, enquanto ela, de pé, olhava para baixo, era estranha sua fisionomia à meia-luz. Pus o copo de lado. “Foi rápido”, disse. “Deveria ter demorado mais”? Levantei-me e seu rosto se aproximou, os braços me envolveram. Passado um tempo, empurrei-a. “A chuva é tão gostosa. Faz a gente se sentir bem por dentro, básica, basta ouvir”. Eu estava encostada no balcão do bar. Clara, próxima, quente, olhos a brilhar, boca sensual e adorável. “Você”, falei deliberadamente, “não liga a mínima para mim, exceto fisicamente”. Qualquer uma negaria tal coisa, qualquer moça mentirosa. Mas Clara me sacudiu e havia urgência sem sua voz: “Sabe, você não devia ter dito isso, entendeu? Entendeu? “A verdade sempre dói।”

Idiota, falei, ou melhor, pensei alto.

“Não fique brava, ela riu. Afaste-se do balcão e veja”.
Recuando um passo, ela me puxou para perto de si, senti o estômago achatar e ela me beijou demorada e docemente, demorou a me soltar. "Pronto”, disse com um sorriso meigo, “ a verdade nem sempre dói, não é mesmo”?

Wednesday, June 03, 2009

Preciso falar uma coisa bem baixinho: gosto de você, mas não muito. Não quero gostar muito de ninguém.

Bem, jamais voltarei a vê-la, o que talvez seja melhor. Ela saiu da minha vida na noite passada, de uma vez por todas. Sei, com certeza repulsiva, que é o fim. Saímos juntas apenas duas vezes. Mesmo assim, gostei muito dela, gostei até demais. Tive que arrancá-la do meu coração para evitar que me magoasse ainda mais. Ah, ela é sedutora, atraente, a gente se perde naqueles olhos. Sua capacidade de atração sexual é irresistivelmente intensa. Eu queria conhecê-la, pensamentos, idéias por trás da máscara de confiança, beleza deboche. “Eu mudei”, ela me disse, “ você teria gostado de mim há três anos”. Ficamos sentadas na varanda durante horas, conversando, olhando para o vazio. Aí a atração cresceu, concentrou-se. Sua proximidade era elétrica em si. “Não vê que eu quero beijá-la?”, disse. E beijou-me avidamente, de olhos fechados, a mão quente a me queimar a barriga. “Eu queria odiar você”, falei. “Por que veio”? Eu desejava sua companhia. W. e C. queriam beber, eu também não estava afim disso.
Passava das onze; fui até a porta com ela e saí na noite fria de julho. “Venha cá”, ela me disse, “ preciso falar uma coisa bem baixinho: gosto de você, mas não muito. Não quero gostar muito de ninguém”. Aí levei um choque e revidei: “Eu gosto muito das pessoas, ou as detesto. Tenho de ir até o fundo, mergulhar nas pessoas, conhecê-las de verdade”. Ela foi clara: “Ninguém me conhece”. Aí acabou, ponto final. “Até nunca mais, então”, falei. Ela olhou para mim com dureza, com um sorriso no canto de boca. “Você tem sorte garota. Nem sabe a sorte que tem”. Eu chorava baixinho, sentia o rosto contraído. “Chega”! As palavras saíram como golpes de faca, depois suaves. “Viva a vida pra valer”, falei. E ela foi embora andando pelo caminho com seu jeito despreocupado, elegante. E eu fiquei ali onde me deixara, trêmula de amor e desejo, soluçando no escuro. Naquela noite foi duro dormir.

Wednesday, May 27, 2009

As coisas negras não ditas ocupam o coração deste texto.


Amo as pessoas. Todas elas. Amo-as. Creio como um colecionador de selos ama sua coleção. Cada história. Cada incidente. Cada fragmento de conversa. Meu amor é impessoal. É inteiramente subjetivo. Gostaria de ser qualquer um. Moribundo. Aleijado. Puta. E depois retornar para escrever sobre meus pensamentos, minhas emoções enquanto fui àquela pessoa. Mas não sou onisciente. Tenho de viver a minha própria vida. Ela é a única que terei. O presente é para sempre. O eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida, e quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça, invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação, mas não o bastante, não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O momento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some. E eu não quero morrer.

Se o eterno não tivesse fixado suas leis contra o suicídio! O mundo é estéril. Vazio. Tedioso. Nada é firme e sólido. Erva daninha a espalhar o obsceno ato de existir. O homem retorna ao nada. Entre dois presságios de luz – o nascimento e a morte – a vida se mostra um doloroso adeus. Quero que minha alucinação seja algo de gigantesco. Quero que ela borde a minha loucura. O mais cáustico dos venenos é a lucidez.

Sou você


Eu poderia escrever sobre você. Poderia escrever sobre tua “ironia fina”, sobre tua dor. Tua vontade de mudar o mundo. Tua descrença. Tua desordem. Teu caos. Mas eu também sou você. Retroalimento-me de você. Sou você na tua maneira de sorrir. Sou você quando te observo calado. Sou você quando sinto tuas dores. Quando respiro teus traumas. Sou incondicionalmente você. Somos o mesmo lado da moeda. Somos o acaso em busca de respostas. Nosso grande livro está com as páginas trocadas. Precisamos ordená-las uma a uma?
Sou você quando sinto teu braço roçando no meu. Um leve deslizar de mãos. Teu olhar atento. Sou você na maneira curiosa como olha o outro. Sou você que também detesta o senso comum. Sou você que empalidece de dor quando ver homens nus nas calçadas. Sou você que também rejeita o conhecimento elitizado. Sou você que ver entre o mundo vira-lata e o mundo poodle uma dicotomia absurda. Sou você ao debruçar teus lindos olhos sobre a podridão do mundo. Sou você que não quer ficar calado. Que quer se expor. Sou você que se deita no travesseiro e sente o peso dos séculos te esmagarem as entranhas. Sou você que sofre. Que deseja.
Somos o abismo fundamental.
O vazio das horas.
O luto do mundo.

Friday, March 20, 2009

Previsões de um encontro irremediável





J. – Oi!
G. – Oi!
J. – Tudo bem?
G. – Tudo. E aí? Como foi a viagem?
J. – Um pouco cansativa. Muito tempo de vôo. (na falta do que dizer e exalando timidez por todos os poros do meu corpo, eu largo esta merda. Desde quando um vôo Salvador-Curitiba é cansativo?)
G. – E aí? Animada para o réveillon?
J. – Sim! Muito! É a primeira vez que venho a Florianópolis. Passar o réveillon na praia, um sonho!
A conversa tem pausas. A timidez lacra minha voz. Eu não consigo dizer nada. Tudo o que penso parece estúpido.

Seguimos direto para o albergue.

J. – É. Bonito lugar! E perto da praia. Eu adoro praia!

(Mentira. Eu detesto praia. Moro em frente à praia e não freqüento praia. O sol é desestimulante. Aquela confluência de corpos chamuscados por um vermelho-paixão. Exalando sensualidade. Fora isso eu estou branca feito uma estátua de mármore. Nunca gostei de “pegar” um bronze. Aliás, nunca fiquei bronzeada. No máximo fico vermelha. Vermelho-camarão. Conhece?)

G. – Eu acho que tu vais gostar dos meus amigos. Tem a C. a Ge.
J. – Sim. Claro. Conheço todos por Orkut. Simpatizei-me muito com a Ge.
G. – E a C?
J. – Ela toca violão! Eu sempre quis tocar um instrumento. Mas não levo jeito. Você me disse que ela tem a capacidade de reunir a galera. Fazer com que todos fiquem mais entrosados.
G. – É! A C. é uma irmã p. mim.
J. – Sim. Eu sei. Você me disse.

(Eu não tenho nada contra a C. Sério! Mas pessoas extrovertidas demais me assustam. Sim. Eu nem conheço a garota. E sempre me surpreendo com as pessoas. Mas eu sou ciumenta. Meu horóscopo chinês é o macaco-martelo. Ou macaco outra coisa? Ouvi isso dia destes de um astrólogo guru hippie/ avarento que certa vez levei para São Paulo e que me deu o maior calote)

(Tenho vontade de vomitar por meio de verborragias toda a ansiedade que senti durante estes dias. O medo. Expor todas as minhas carências. Dizer que me masturbava pensando nela. Tenho vontade de comê-la no exato momento em que nos encontrarmos)

J. – Eu acho que vou gostar de Florianópolis. Conheço Porto Alegre e Curitiba. Mas esta é a primeira vez que venho a Floripa.
G. – Sim. Tu vais gostar sim! É um lugar lindo. Já te disse isso pelo MSN.

J. – É. Tínhamos longas conversas pelo MSN.

(Internet. O sonho de consumo sexual-afetivo concretizado através de corpos-palavras. Como eu a amei durante todo este tempo.)

J. – Você é ainda mais bonita pessoalmente que pela web cam.

(Neste momento meu rosto fica rubro e eu dou um meio sorriso sem graça. Sorriso de gente tímida.)

G. – E o filme. Tu trouxeste?

J. – O diretor. Ele não me deixou trazer o filme porque tem a intenção de inscrevê-lo em alguns festivais. Não quer que o filme seja divulgado antes disso. Uma pena! Queria tanto te mostrar.

G. – Poxa! Uma pena mesmo!

(Encontro os amigos dela! A minha intuição diz que eu vou gostar mais da Ge.
Talvez porque ela tenha um instinto maternal em relação à G. A Ge se preocupa com a G. Eu gosto de amigos que se preocupam. Não que os outros não se preocupem. Mas não os conheço. Pelo menos a G. nunca me falou muito deles!)

A conversa flui!

Alguém: Quer dizer que tu és baiana hein?

J. – É. Sou.

Alguém: Mas tu não tens sotaque.

J. – Pois é. Sabe-se lá por que!

(Provavelmente alguém deve pensar que eu tenho vergonha do sotaque dos baianos. Talvez seja isso. Mas o fato é que eu gosto de línguas desde criança Sou muito “membrana plasmática”. Absorvo sotaques e atmosferas e hábitos com muita facilidade. Não sou nada barrista! Tenho que admitir! Mas o que é que nós baianos estamos vendendo p. o resto do Brasil? Música de baixa qualidade “música-pagode-baixaria”. Tudo misturado. No fundo com o mesmo refrão: Eu “dou” e tu me “dá” também. É. Infelizmente a era tropicália e bossa - João Gilberto é coisa do passado. E agora o Caetano tentando cantar Nirvana. Peloamordedeus!)

Alguém: Tu trabalhas com cinema?

J. –Fiz um filme apenas. Não trabalho com cinema.


Alguém: E do que se trata o filme?

(Esta é a pergunta mais difícil. Mas vamos lá!

(Sóbria eu diria que se trata de um triângulo amoroso que envolve três personagens. Um hetero que se apaixona por um gay e que mantém uma relação destrutiva com uma mulher. Bêbada eu diria: Eu entrei no filme quando o roteiro já estava pronto. O filme se resumia a uma história de amor entre dois homens que terminava em tragédia com a morte de um deles. Durante a produção do filme fui dando alguns palpites ao diretor. Acabei assumindo a função “voz off”. Transformei o personagem assassinado no narrador em off. Tentei ao máximo não planificá-lo. Problematizá-lo e fazer com que ele transitasse com total liberdade de pensamento por entre todos os ambientes. Inclusive invadindo o pensamento dos outros dois personagens da trama.)


Alguém: Parece interessante. Pena que tu não trouxeste!

J. - Pois é. Cinema tem destas coisas!

(Cinema é na verdade uma puta feira de vaidades. Cada um querendo salvaguardar seu ego. Quanto mais inflado o ego de uma pessoa que trabalha com cinema, mais ele se sente um novo Lukas Moodysoon.)

G. - (Linda. Observando a conversa)
Tu pensas em passar quantos dias aqui?
J. – Não sei. Estou vendo aí! (típica resposta de quem já está morrendo de amores e que gostaria de passar a eternidade ao lado dela)

Preparativos para o réveillon

Por etapas:
1) Escolher a roupa. Nada que marque minha cintura e revele as gordurentas que eu vou tentar esconder. Claro!
2) Maquiagem: Etapa mais difícil! Delineador? Nem pensar! Há dois meses R. passa o delineador em mim e eu não aprendo a usar aquilo! Afinal, delineador é tinta! É difícil. E eu tenho uma péssima habilidade motora.
3) Aguardar G. no albergue? Será que ela vai me buscar no albergue ou eu vou ter que ir até a praia ao encontro deles?
4) Caso isso aconteça: Ligar antecipadamente p. G. marcando um local de encontro. Ou. Construir um mapa que me faça chegar exatamente ao local onde eles se encontram.

(Aqui nós temos o hábito de ensinar as coisas de forma aleatória. Sem muitas explicações. Lá eles ensinam geralmente usando as palavras: Tu segue reto! Ou. Anda mais duas quadras! Minha cabeça fica zonza com estas explicações. Vai ser o jeito perguntar a no mínimo umas dez pessoas. Minha memória recente não é das melhores.)

Réveillon:

Sóbria:

Vou ficar calada que nem um túmulo e quando as pessoas perguntarem por que eu sou assim, tão calada, eu respondo: Gosto de observar. Este é meu jeito.

Bêbada: Vou tentar interagir com as pessoas e tentar ficar ao máximo perto da G. Vou tentar seduzi-la sem fazer cara de cachorro pidão! Isso não funciona! Vou ser gentil. Sem exageros.

Muito bêbada:
Vou começar a lembrar dos meninos e procurar um cartão p. ligar p. eles desejando feliz ano novo e dizer que estou morrendo de saudades.

Ai! Como eu to ansiosa!
Não vejo à hora de embarcar de vez p. Floripa.
E este rivotril que não faz efeito!
Merda!
Mas eu te amo G.!

A separação também faz parte de uma história de amor?




Meu coração pesava dentro de mim. Durante dias fiquei prostrada numa cama à sua espera, com a íntima certeza de que ela iria voltar, mas tudo o que eu via pela janela era o carro-preto da mulher de trinta. A mulher de trinta com cara de quarenta. A mulher de trinta com cara de quarenta e a menininha de vinte e cinco estavam juntas. Eu não conseguia acreditar nisso. Vedei meus olhos e comecei a acreditar apenas na minha fantasia. A fantasia. O condão de ouro. O “arco-íris” urbano que eu havia criado, com cores que em nada se assemelhavam ao escuro-real daquele quarto pequeno, me dizia que o universo era amplo, e no meu universo, ela era a minha noiva fantasma.

Quando o real se mostra opressivo, tal qual o beijo de um devasso, você aciona seu mecanismo de autodefesa criando uma sub-realidade, e passa a acreditar nela.

Eu e a angústia. Dormíamos abraçadas, à espera da noiva-fantasma.
Um, dois, três dias....

O tédio é o sentimento mais moderno que existe.
Finalmente a noiva fantasma aparece.

Noiva fantasma- Eu acho que a gente precisa conversar.

Ela tinha me abandonado por três dias e ainda se mostrava disposta a uma conversa. Tinha chegado com um perfume diferente. Os cabelos levemente molhados. O carro preto com a mulher de trinta com cara de quarenta estava na casa ao lado. Parado. No rosto um leve sorriso de sarcasmo.

J. - Olha, G, você não aparece em casa. Eu estou preocupada. Não quero te causar nenhum incômodo. Eu estou indo embora com os meninos, vamos para um albergue.

Noiva fantasma- Espera. Espera! Nós precisamos conversar.

J. - Você ficou com outra pessoa no réveillon. Certo?

Noiva fantasma- Sim!

J. - É. Eu percebi. Por isso que eu fui embora. Não precisava ficar ali para presenciar aquilo.
Noiva fantasma- É. Eu sei!

Noiva fantasma- Eu sou muito má quando eu não gosto.

Neste momento meu rosto assumiu uma expressão de dor tão profunda que eu não consegui vislumbrar nada além do imenso vazio que eu sentia. A minha visão se voltou para dentro e meu coração se transformou em uma víscera morta que palpitava aleatoriamente, em descompasso. Eu conseguia sentir o som do meu coração, era como se ele tivesse ganhado vida própria. O corpo palavra das longas conversas pela web tinha se transformado em um corpo-víscera mórbida. Eu era só coração.

Mas existiram as conversas no posto de gasolina próximo a casa dela. O humanismo. A dor ao ver o mendigo na calçada. O desejo momentâneo em estar comigo. O sorriso franco. O olhar de vidro. Tudo se misturou e explodiu dentro de mim. Eu era ela e era tudo o que ela sentia. Era o que ela sentia e o que eu sentia. Mas eu senti. Ela? Será que ela sentiu também?

J – A coisa não deu certo, claro. G ficou constrangida. J, decepcionada.

Noiva fantasma- Me doeu muito te ver naquele estado durante o réveillon, ver que você não conseguia interagir com as pessoas e não conseguir te abraçar.

J - Sofrendo bastante, vivendo, sangrando, e amando. O mito do artista sofrido parecia calar fundo no meu coração. Eu estava perdida!

Há pessoas que nascem e morrem sem nunca ter sentido espasmos de angústia.
Há pessoas que passam pela vida sem nunca ter chorado ou sentido. Elas morrem ou perdem o visgo muito cedo.
Quantas conversas. Quantas palavras não ditas. Quanto sentimento dilacerado, perdido nos trilhos de uma dor sem fim.

Uma nuvem preta me acompanhava. Uma nuvem de melancolia, aonde quer que eu fosse.
Acho que vou morrer amando.

A separação também faz parte de uma história de amor!




Era como se a nossa história não houvesse sido escrita.
“Entre a palavra e o ato existe a sombra”.

Eu estava “andando sobre pregos”. Fiel apenas a minha dor, presa em seu quarto, presa às suas coisas. Por três dias fiquei ali, a mesma roupa, o mesmo “olhar ferido”. Eu estava atravessada por uma nuvem de lágrimas.

Um simples toque abalaria toda a minha frágil construção. Como se soerguer depois de ter sido machucada até a exaustão?

O coração pesa quando se está sofrendo.

Em segundos tudo estava desfeito. Nada do que tínhamos planejado se tornou real.
Na minha cabeça existia apenas a certeza de um encontro que ainda estava por vir. Eu negava toda e qualquer possibilidade de aceitação do real. O real doía em proporções inimagináveis.

Nos dedos tinha apenas um esmalte preto desbotado. Andava pelas ruas como um cão faminto e desgraçado. Um cão contaminado por uma doença que afligia todos os sentidos. Eu estava paralisada. A dor do desencontro me paralisou. A dor da traição me despertou a pior de todas as sensações. A sensação de que só a morte calaria profundo minha tristeza.

O olhar dela era prego crivado em minha mente. Um olhar que me atraía como um imã para a confusão. Um olhar que dizia verdades que eu jamais ouviria.

O que ela falava não me interessava. Interessava-me seu olhar, apenas seu olhar, um portal de verdades que dissolviam a dor que eu sentia. Verdades, ou mentiras brancas?

Eu a esperei. Por três dias perdi todo e qualquer resquício de amor próprio. Iludi-me como uma idiota, uma retardada com idade emocional de 6 anos. Enquanto a “roda da vida” girava, enquanto o mundo girava, eu estava em seu quarto. A minha roda estava parada. Enquanto as pessoas transitavam pelas calçadas e pela areia das praias eu me refugiava em um quarto escuro, em uma roda que não se movia. Eu estava presa a minha dor. Eu e a angústia, unidas como irmãs siamesas.

Pateta. Palhaça. Em busca de um verdadeiro amor.

O olhar era o único componente vivo do corpo dela. O seu olhar era o corpo vivo que incansavelmente repetia: O amor mata! O amor mata!
E tudo o que eu buscava era a leveza de um sorriso franco!


Meus pensamentos estavam embaralhados, um cartel de cartas confusas a pontuar minha dor viva. A felicidade é rara quando se está sofrendo!

Por quê se manter na roda, a roda que gira, quando tudo o que você precisa é um contato tátil com alguém que ama?

Por três dias fiquei em sua cama. Deitada, objeto imóvel. Fiquei em seu quarto, sentindo sua presença, sua presença invisível, remoendo a certeza de um encontro que não se realizou.
Completamente cega. O mito do amor romântico calou profundo em mim. Cega sou um cão faminto, bicho solto que anda pelas ruas com um olhar ferido.

" E de repente sua boca procurou a minha, intensa, veemente, a língua penetrando por entre meus dentes, os braços feito ferro a me prender"



Esta noite vi G: D e eu abríamos caminho na enxurrada humana para sair do cinema, ela ia pelo outro lado de jaqueta preta. Mal a reconheci, maquiada, de olhos abatidos. Mas bela. “Andei procurando você por toda a parte”, falei, “G, telefone, escreva para mim”. Ela sorriu quase como a G. que eu conhecera, antes de sumir. Sabia que jamais teria uma amante assim como ela. Então saí de vestido branco, casaco branco, e me odiei pela hipocrisia. Adoro G. Tive outras amantes, eu sei. Algumas engraçadas. Diversão histérica. G. sou eu, o que eu seria se tivesse nascido numa família gaúcha de Novo Hamburgo. Significa mais para mim do que todas as moças graciosas e artificiais que posso conhecer. Ela é rude, dúbia. Talvez seja um dos meus egos. Talvez eu precise de alguém que jamais se torne minha rival.

Postagem sem título

Ela estava em meu quarto. Minha mãe estava em meu quarto. Ela não tinha idéia do que tinha acontecido comigo. Mas estava ali. Tagarelando sem cessar. Não sabia que eu tinha chorado “sem” lágrimas antes de dormir. Não sabia que o que restava era uma cama de ferro. Dura e áspera. Não tinha idéia de como eu estava me sentindo. Não conseguia ver que os médicos tinham feito minhas lágrimas secarem.

--- Você está magra! Quer dizer, não engordou muito!

Ahhhhhh! A reabilitação tinha me deixado gorda. Eu estava imensa. Como não ver isso?

Ansiolíticos engordam! Como ela era estúpida em achar que eu não tinha consciência disso. Meses em uma clínica tomando doses cavalares de ansiolíticos. Eu estava imensa! Uma vaca gorda que não conseguia enxergar a própria vagina. Mas minha mãe estava ali. Escondendo tudo. Escondendo meus traumas. Escondendo seus traumas. Tentando esquecer que eu tinha mentido em sua cara. Que eu tinha roubado seu dinheiro inúmeras vezes. Tentando esquecer os meus porres homéricos. Os cheques voadores. Os telefonemas anônimos. As namoradas anônimas. Os telefonemas das namoradas que eu tinha que manter no anonimato.

Eu era uma estranha para ela. Para todos eles. Eles e seu mundinho de julgamentos. Sempre desconfiados. Sempre paranóicos.

Aquela diversão histérica me incomodava. Eu não estava feliz em voltar para casa. Eu queria me manter invisível. Mas todos vinham me cumprimentar por estar “começando de novo”.

Quantas vezes terei que “começar de novo”?

---- Mãe, onde é a parte da mesa onde ficam os perdedores?


Putz! Eu não queria “recomeçar”! Não estava disposta a ter uma nova chance. Não queria ser parabenizada por um recomeço que eu não conseguia enxergar. Meses em um manicômio. Meses em uma cela cheia de lunáticos e eu tinha que demonstrar um equilíbrio instantâneo. Não! Eu continuava desequilibrada. E não queria forçar um aparente equilíbrio.

Meu mundo é uma ostra.

---- Okay. Vocês venceram! Vou tatuar “Madre Tereza de Calcutá” na testa para vocês! Satisfeitos?

---- Que mesa linda! Que jantar lindo! Vamos todos sorrir ao posar para as fotos do natal, okay? Precisamos destas recordações. Colocá-las em um álbum lindamente ornamentado.

Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei.

Sim. Eu não posso considerar a minha vida com curiosidade subjetiva o tempo inteiro. Tenho de viver a minha vida. Ela é a única que terei. Mas como viver a minha vida neste baile de máscaras. Neste “barco de luxo” naufragado?

----- Ah! Vocês não têm idéia de como era solitário viver naquela cela enquanto todos voltavam para o seu mundinho ordinário!

----- Você acha que o seu sofrimento é a coisa mais importante do mundo! Ah! Como você evoluiu no seu sofrimento!

----- Ahhhhhhh! Quem disse que eu penso desta forma! Ahhhh! Não! Eu não evoluí no meu sofrimento. Continuo amando. Sofrendo. Sangrando.

----- Eu quero sangrar até secar. Entendeu? E não estou pedindo para serem “leais” ao meu sofrimento. Não sofro por modismo. Sofro porque não saberia viver de outra forma. Algumas pessoas nascem com esta insígnia. É letal. Eu sei. É genético. Não sei. Sei que está em mim. Esta dor maldita está em mim. Esta angústia fedida está em mim e eu simplesmente não sei como me livrar dela.

----- Você nunca está feliz, mãe. Ao menos que eu esteja em algum tipo de situação desesperadora. Você não sabe o que fazer comigo ao menos que eu esteja em crise.

----- As pessoas te alertaram mãe. Eu era uma drogada. Uma louca viciada em drogas. Eu era uma chapada que vivia fora da realidade. Será que você não notava que os frascos de perfume que eu borrifava eram para esconder o cheiro da maconha?

----- Mãe, nós somos crucificados pelas próprias limitações. Nossas escolhas cegas não podem ser mudadas. Tornam-se irrevogáveis. Você teve suas chances. Não soube aproveitá-las. Chafurdada no “pecado original”! Mãe, eu perdi toda a alegria engaiolada neste quarto. Neste quarto minha dor crônica de viver se torna mais suave. Neste quarto eu sou meio-resolvida. Meio-desesperada. Lá fora os pensamentos me rondam como demônios. Cada pensamento é um inferno. Mãe, eu só quero voltar para casa. Eu só quero retornar ao útero. Eu só quero ver o mundo bater uma porta atrás da outra na minha cara e me manter anestesiada.

----- Eu vou ligar para sua médica. Ela precisa saber o que está acontecendo.

----- Todos na casa estão me vendo como se eu fosse uma visitante sociopata.
O que vocês querem que eu faça? Ponha fogo na casa?

----- Adoraria quebrar sua empáfia!

----- Who I have to be now! É verdade. Eu fui um pesadelo. Você foi uma santa. Mas desculpa. Mesmo assim eu não estou satisfeita em estar aqui
com vocês.

Tuesday, July 15, 2008

Postagem sem título




Numa sala imersa na escuridão, repentinamente iluminada por um facho de luz, Sarah, entre os dedos um cigarro de filtro vermelho, dominada por uma respiração abafada, silêncios prolongados e uma voz reticente, desvenda sua tensiva poesia.

No centro da sala me comporto como uma estátua imóvel, que, no entanto fala, respira e contempla atônita, ao som das notas frias de Ian Curtis, aquelas palavras vindas do nada, que se propagam até retornar ao vazio, numa pluralidade de sentidos que me inflama a alma.

Enigmática, Sarah diz estar escrevendo uma peça intitulada: 04h48 psicose, sobre uma depressão psicótica e o que acontece ao espírito de uma pessoa quando desaparecem completamente as barreiras distinguindo a realidade das diversas formas de imaginação. Tão bem que você não faz mais diferença entre sua vida sonhada e sua vida acordada.

Minha mente é polarizada por um misticismo caótico. Um universo de autênticos devaneios, com santos modelados à argila, dançando como deuses, envoltos em uma atmosfera sombria, surreal, onde uma penumbra deslumbrante e irrepreensível completa o ambiente.

A imagem é desfeita.

Kane começa a divagar sobre a peça, e prontamente sou acometida por um nó na garganta. Verdadeiros cataclismos internos inundam minha mente. Preciso de algo que abrande meus sentidos, estou sufocando. Ela me oferece uma dose de bebida. Um único gole, a bebida queima o estômago, a boca subitamente ganha um gosto amargo, e os pensamentos não acompanham as notas de Ian Curtis. Agora meus ouvidos estão totalmente voltados para Sarah, suas frases soltas, sua lucidez distorcida.

Às 04h48 eu não falarei mais (...). Às 04h48, happy hour. Quando a obscuridade faz sua visita. Quente obscuridade que banha meus olhos. (...) Às 04h48, quando a desesperança fizer sua visita, eu me enforcarei ao som do sopro do meu amante. Anuncia secamente, através de frases soltas, mescladas a versos soltos, diálogos e ritmos.

Um silêncio perturbador permeia o ambiente e eu não consigo vislumbrar nada através dos meus olhos, apenas uma latente escuridão.

Irremovível como uma pintura no centro da sala, acendo um cigarro e uma nova dose de bebida entorpece minha imaginação.

Um breve hiato criativo. Seus olhos parecem repousar sobre o vazio, revelam temor e uma angústia que me faz doer os ossos.

Durante toda a noite Sarah parece oscilar; morta viva, morta viva. Recosto meu rosto pálido sobre os lençóis que envolvem a poltrona. Eles se mostram opressivos, tal qual o beijo de um devasso.
O meu corpo em brasas. O conhaque parece fazer efeito.

“Morrer é uma arte, como tudo mais. Nisso sou excepcional”. Anuncia Sylvia Plath. Sinto um soco no estômago.

Eu quero morrer, rapidamente, mergulhada em minha própria angústia, em meu próprio desespero.

Reticente, quase monossilábica, Sarah ratifica não ter desejo nenhum de morte. Afinal, nenhum suicida nunca teve.

“Escrevo para os mortos, aqueles que não são nascidos”.

Ardo e me viro. Cinzas. Derreto-me em um grito.

Monday, June 30, 2008

O sangue é a linguagem do amor




Seu desejo era o silêncio. O silêncio intercalado entre o mistério e o vazio.

Durante horas permaneceu calada, dominada por um êxtase velado e pelos liames de uma profunda ligação amorosa, onde omitia o concreto, e sublinhava as entrelinhas do sublime.

A redoma de silêncio é despedaçada.

O lustre vermelho e a máquina de escrever sobre a escrivaninha do quarto imprimiam luz e sonoridade ao ambiente cinzento, onde sua face pálida assumia expressões fleumáticas.
Estilhaços de vidro mesclam-se as palavras agridoces que brotam da máquina.

O desejo inviolável oscila entre o real e o imaginário.

Manhã de sábado.

Não conseguia manter um vínculo real com as ruas, onde corpos chamuscados por um prazer descartável percorriam aflitos pequenos espaços nas areias das praias, onde todos pareciam à mercê do vermelho-paixão, da troca de fluídos, da satisfação primária dos desejos carnais. Ela estava sozinha, perdida entre pontes do sofrer sufocado, e reticências da volúpia impetrante.

A presença do Outro era vital, atormentava sua libido, incorporava vida a via crucis do seu corpo tímido, inoculando doses de veneno prostituído às escrituras íntimas do seu corpo em chamas.

O Outro aparece sob as vestes de um “Dom Ruan de saias”, provocando uma visível distorção de gestos, e disritmia de sensações, desfazendo sua expressão fleumática, reacendendo sua vontade de interseção carnal
Um beijo no espelho. A simbiose entre as duas mulheres unia identidades e insanidades.

Debruçada sobre a janela, contempla uma pena que suavemente desliza entre as folhas secas das árvores. Seu corpo não mais lhe pertencia, era propriedade exclusiva do Outro. Seus pensamentos foram suprimidos pelo desejo de exceder os limites da experiência possível.

Um cigarro aceso e um olhar traiçoeiro. Ela se esquiva sobre o leito, e o Outro mostra indícios de que irá desenhá-la.

Uma folha em branco, alguns rabiscos. O desenho logo é descartado, e Ele beija seu rosto subtraindo sua alma através de movimentos circulares, onde o êxtase atinge seu ponto nevrálgico quando “perfura” sua boca.

Duelo de titãs. O sol desacelera a chegada da noite. Linhas quentes invadem a sala. Ela prefere eternizar o milagre da transcendência entorpecida pelo calor da noite.

No quarto, onde luzes apagadas e velas acesas abrasavam os corpos, dominados por um ritual pagão, intercaladas por uma volúpia gritante, ela pede ao Outro que perfure sua vagina com um objeto cortante.

Absorvida por um olhar distante, entrecruzado pela loucura intocável da alma, nas mãos um tubo metálico, suplica ao Outro que a faça gemer de prazer.

O sangue vermelho contrasta sua pele alva, escorrendo por entre as pernas.

Nascem rosas do seu útero.

Catatônico, o Outro observa em seu rosto uma inebriante sensação de alívio.

Chorando copiosamente, suplica para que faça o sangue estancar.

Sem nenhum traço de remorso, e indiferente à dor, ela enfatiza que o sangue é a linguagem do amor.