
Wednesday, May 27, 2009
As coisas negras não ditas ocupam o coração deste texto.


Sou você

Sou você quando sinto teu braço roçando no meu. Um leve deslizar de mãos. Teu olhar atento. Sou você na maneira curiosa como olha o outro. Sou você que também detesta o senso comum. Sou você que empalidece de dor quando ver homens nus nas calçadas. Sou você que também rejeita o conhecimento elitizado. Sou você que ver entre o mundo vira-lata e o mundo poodle uma dicotomia absurda. Sou você ao debruçar teus lindos olhos sobre a podridão do mundo. Sou você que não quer ficar calado. Que quer se expor. Sou você que se deita no travesseiro e sente o peso dos séculos te esmagarem as entranhas. Sou você que sofre. Que deseja.
O vazio das horas.
O luto do mundo.
Friday, March 20, 2009
Previsões de um encontro irremediável

J. – Oi!
G. – Oi!
J. – Tudo bem?
G. – Tudo. E aí? Como foi a viagem?
J. – Um pouco cansativa. Muito tempo de vôo. (na falta do que dizer e exalando timidez por todos os poros do meu corpo, eu largo esta merda. Desde quando um vôo Salvador-Curitiba é cansativo?)
G. – E aí? Animada para o réveillon?
J. – Sim! Muito! É a primeira vez que venho a Florianópolis. Passar o réveillon na praia, um sonho!
A conversa tem pausas. A timidez lacra minha voz. Eu não consigo dizer nada. Tudo o que penso parece estúpido.
Seguimos direto para o albergue.
J. – É. Bonito lugar! E perto da praia. Eu adoro praia!
(Mentira. Eu detesto praia. Moro em frente à praia e não freqüento praia. O sol é desestimulante. Aquela confluência de corpos chamuscados por um vermelho-paixão. Exalando sensualidade. Fora isso eu estou branca feito uma estátua de mármore. Nunca gostei de “pegar” um bronze. Aliás, nunca fiquei bronzeada. No máximo fico vermelha. Vermelho-camarão. Conhece?)
G. – Eu acho que tu vais gostar dos meus amigos. Tem a C. a Ge.
J. – Sim. Claro. Conheço todos por Orkut. Simpatizei-me muito com a Ge.
G. – E a C?
J. – Ela toca violão! Eu sempre quis tocar um instrumento. Mas não levo jeito. Você me disse que ela tem a capacidade de reunir a galera. Fazer com que todos fiquem mais entrosados.
G. – É! A C. é uma irmã p. mim.
J. – Sim. Eu sei. Você me disse.
(Eu não tenho nada contra a C. Sério! Mas pessoas extrovertidas demais me assustam. Sim. Eu nem conheço a garota. E sempre me surpreendo com as pessoas. Mas eu sou ciumenta. Meu horóscopo chinês é o macaco-martelo. Ou macaco outra coisa? Ouvi isso dia destes de um astrólogo guru hippie/ avarento que certa vez levei para São Paulo e que me deu o maior calote)
(Tenho vontade de vomitar por meio de verborragias toda a ansiedade que senti durante estes dias. O medo. Expor todas as minhas carências. Dizer que me masturbava pensando nela. Tenho vontade de comê-la no exato momento em que nos encontrarmos)
J. – Eu acho que vou gostar de Florianópolis. Conheço Porto Alegre e Curitiba. Mas esta é a primeira vez que venho a Floripa.
G. – Sim. Tu vais gostar sim! É um lugar lindo. Já te disse isso pelo MSN.
J. – É. Tínhamos longas conversas pelo MSN.
(Internet. O sonho de consumo sexual-afetivo concretizado através de corpos-palavras. Como eu a amei durante todo este tempo.)
J. – Você é ainda mais bonita pessoalmente que pela web cam.
(Neste momento meu rosto fica rubro e eu dou um meio sorriso sem graça. Sorriso de gente tímida.)
G. – E o filme. Tu trouxeste?
J. – O diretor. Ele não me deixou trazer o filme porque tem a intenção de inscrevê-lo em alguns festivais. Não quer que o filme seja divulgado antes disso. Uma pena! Queria tanto te mostrar.
G. – Poxa! Uma pena mesmo!
(Encontro os amigos dela! A minha intuição diz que eu vou gostar mais da Ge.
Talvez porque ela tenha um instinto maternal em relação à G. A Ge se preocupa com a G. Eu gosto de amigos que se preocupam. Não que os outros não se preocupem. Mas não os conheço. Pelo menos a G. nunca me falou muito deles!)
A conversa flui!
Alguém: Quer dizer que tu és baiana hein?
J. – É. Sou.
Alguém: Mas tu não tens sotaque.
J. – Pois é. Sabe-se lá por que!
(Provavelmente alguém deve pensar que eu tenho vergonha do sotaque dos baianos. Talvez seja isso. Mas o fato é que eu gosto de línguas desde criança Sou muito “membrana plasmática”. Absorvo sotaques e atmosferas e hábitos com muita facilidade. Não sou nada barrista! Tenho que admitir! Mas o que é que nós baianos estamos vendendo p. o resto do Brasil? Música de baixa qualidade “música-pagode-baixaria”. Tudo misturado. No fundo com o mesmo refrão: Eu “dou” e tu me “dá” também. É. Infelizmente a era tropicália e bossa - João Gilberto é coisa do passado. E agora o Caetano tentando cantar Nirvana. Peloamordedeus!)
Alguém: Tu trabalhas com cinema?
J. –Fiz um filme apenas. Não trabalho com cinema.
Alguém: E do que se trata o filme?
(Esta é a pergunta mais difícil. Mas vamos lá!
(Sóbria eu diria que se trata de um triângulo amoroso que envolve três personagens. Um hetero que se apaixona por um gay e que mantém uma relação destrutiva com uma mulher. Bêbada eu diria: Eu entrei no filme quando o roteiro já estava pronto. O filme se resumia a uma história de amor entre dois homens que terminava em tragédia com a morte de um deles. Durante a produção do filme fui dando alguns palpites ao diretor. Acabei assumindo a função “voz off”. Transformei o personagem assassinado no narrador em off. Tentei ao máximo não planificá-lo. Problematizá-lo e fazer com que ele transitasse com total liberdade de pensamento por entre todos os ambientes. Inclusive invadindo o pensamento dos outros dois personagens da trama.)
Alguém: Parece interessante. Pena que tu não trouxeste!
J. - Pois é. Cinema tem destas coisas!
(Cinema é na verdade uma puta feira de vaidades. Cada um querendo salvaguardar seu ego. Quanto mais inflado o ego de uma pessoa que trabalha com cinema, mais ele se sente um novo Lukas Moodysoon.)
G. - (Linda. Observando a conversa)
Tu pensas em passar quantos dias aqui?
J. – Não sei. Estou vendo aí! (típica resposta de quem já está morrendo de amores e que gostaria de passar a eternidade ao lado dela)
Preparativos para o réveillon
Por etapas:
1) Escolher a roupa. Nada que marque minha cintura e revele as gordurentas que eu vou tentar esconder. Claro!
2) Maquiagem: Etapa mais difícil! Delineador? Nem pensar! Há dois meses R. passa o delineador em mim e eu não aprendo a usar aquilo! Afinal, delineador é tinta! É difícil. E eu tenho uma péssima habilidade motora.
3) Aguardar G. no albergue? Será que ela vai me buscar no albergue ou eu vou ter que ir até a praia ao encontro deles?
4) Caso isso aconteça: Ligar antecipadamente p. G. marcando um local de encontro. Ou. Construir um mapa que me faça chegar exatamente ao local onde eles se encontram.
(Aqui nós temos o hábito de ensinar as coisas de forma aleatória. Sem muitas explicações. Lá eles ensinam geralmente usando as palavras: Tu segue reto! Ou. Anda mais duas quadras! Minha cabeça fica zonza com estas explicações. Vai ser o jeito perguntar a no mínimo umas dez pessoas. Minha memória recente não é das melhores.)
Réveillon:
Sóbria:
Vou ficar calada que nem um túmulo e quando as pessoas perguntarem por que eu sou assim, tão calada, eu respondo: Gosto de observar. Este é meu jeito.
Bêbada: Vou tentar interagir com as pessoas e tentar ficar ao máximo perto da G. Vou tentar seduzi-la sem fazer cara de cachorro pidão! Isso não funciona! Vou ser gentil. Sem exageros.
Muito bêbada:
Vou começar a lembrar dos meninos e procurar um cartão p. ligar p. eles desejando feliz ano novo e dizer que estou morrendo de saudades.
Ai! Como eu to ansiosa!
Não vejo à hora de embarcar de vez p. Floripa.
E este rivotril que não faz efeito!
Merda!
Mas eu te amo G.!
A separação também faz parte de uma história de amor?

Meu coração pesava dentro de mim. Durante dias fiquei prostrada numa cama à sua espera, com a íntima certeza de que ela iria voltar, mas tudo o que eu via pela janela era o carro-preto da mulher de trinta. A mulher de trinta com cara de quarenta. A mulher de trinta com cara de quarenta e a menininha de vinte e cinco estavam juntas. Eu não conseguia acreditar nisso. Vedei meus olhos e comecei a acreditar apenas na minha fantasia. A fantasia. O condão de ouro. O “arco-íris” urbano que eu havia criado, com cores que em nada se assemelhavam ao escuro-real daquele quarto pequeno, me dizia que o universo era amplo, e no meu universo, ela era a minha noiva fantasma.
Um, dois, três dias....
Finalmente a noiva fantasma aparece.
Noiva fantasma- Eu acho que a gente precisa conversar.
Ela tinha me abandonado por três dias e ainda se mostrava disposta a uma conversa. Tinha chegado com um perfume diferente. Os cabelos levemente molhados. O carro preto com a mulher de trinta com cara de quarenta estava na casa ao lado. Parado. No rosto um leve sorriso de sarcasmo.
J. - Olha, G, você não aparece em casa. Eu estou preocupada. Não quero te causar nenhum incômodo. Eu estou indo embora com os meninos, vamos para um albergue.
Noiva fantasma- Espera. Espera! Nós precisamos conversar.
J. - Você ficou com outra pessoa no réveillon. Certo?
Noiva fantasma- Sim!
J. - É. Eu percebi. Por isso que eu fui embora. Não precisava ficar ali para presenciar aquilo.
Noiva fantasma- É. Eu sei!
Noiva fantasma- Eu sou muito má quando eu não gosto.
Neste momento meu rosto assumiu uma expressão de dor tão profunda que eu não consegui vislumbrar nada além do imenso vazio que eu sentia. A minha visão se voltou para dentro e meu coração se transformou em uma víscera morta que palpitava aleatoriamente, em descompasso. Eu conseguia sentir o som do meu coração, era como se ele tivesse ganhado vida própria. O corpo palavra das longas conversas pela web tinha se transformado em um corpo-víscera mórbida. Eu era só coração.
Mas existiram as conversas no posto de gasolina próximo a casa dela. O humanismo. A dor ao ver o mendigo na calçada. O desejo momentâneo em estar comigo. O sorriso franco. O olhar de vidro. Tudo se misturou e explodiu dentro de mim. Eu era ela e era tudo o que ela sentia. Era o que ela sentia e o que eu sentia. Mas eu senti. Ela? Será que ela sentiu também?
J – A coisa não deu certo, claro. G ficou constrangida. J, decepcionada.
Noiva fantasma- Me doeu muito te ver naquele estado durante o réveillon, ver que você não conseguia interagir com as pessoas e não conseguir te abraçar.
J - Sofrendo bastante, vivendo, sangrando, e amando. O mito do artista sofrido parecia calar fundo no meu coração. Eu estava perdida!
Há pessoas que nascem e morrem sem nunca ter sentido espasmos de angústia.
Há pessoas que passam pela vida sem nunca ter chorado ou sentido. Elas morrem ou perdem o visgo muito cedo.
Quantas conversas. Quantas palavras não ditas. Quanto sentimento dilacerado, perdido nos trilhos de uma dor sem fim.
Uma nuvem preta me acompanhava. Uma nuvem de melancolia, aonde quer que eu fosse.
Acho que vou morrer amando.
A separação também faz parte de uma história de amor!

Era como se a nossa história não houvesse sido escrita.
“Entre a palavra e o ato existe a sombra”.
Na minha cabeça existia apenas a certeza de um encontro que ainda estava por vir. Eu negava toda e qualquer possibilidade de aceitação do real. O real doía em proporções inimagináveis.
E tudo o que eu buscava era a leveza de um sorriso franco!
Completamente cega. O mito do amor romântico calou profundo em mim. Cega sou um cão faminto, bicho solto que anda pelas ruas com um olhar ferido.
" E de repente sua boca procurou a minha, intensa, veemente, a língua penetrando por entre meus dentes, os braços feito ferro a me prender"
Esta noite vi G: D e eu abríamos caminho na enxurrada humana para sair do cinema, ela ia pelo outro lado de jaqueta preta. Mal a reconheci, maquiada, de olhos abatidos. Mas bela. “Andei procurando você por toda a parte”, falei, “G, telefone, escreva para mim”. Ela sorriu quase como a G. que eu conhecera, antes de sumir. Sabia que jamais teria uma amante assim como ela. Então saí de vestido branco, casaco branco, e me odiei pela hipocrisia. Adoro G. Tive outras amantes, eu sei. Algumas engraçadas. Diversão histérica. G. sou eu, o que eu seria se tivesse nascido numa família gaúcha de Novo Hamburgo. Significa mais para mim do que todas as moças graciosas e artificiais que posso conhecer. Ela é rude, dúbia. Talvez seja um dos meus egos. Talvez eu precise de alguém que jamais se torne minha rival.
Postagem sem título
--- Você está magra! Quer dizer, não engordou muito!
Ahhhhhh! A reabilitação tinha me deixado gorda. Eu estava imensa. Como não ver isso?
Ansiolíticos engordam! Como ela era estúpida em achar que eu não tinha consciência disso. Meses em uma clínica tomando doses cavalares de ansiolíticos. Eu estava imensa! Uma vaca gorda que não conseguia enxergar a própria vagina. Mas minha mãe estava ali. Escondendo tudo. Escondendo meus traumas. Escondendo seus traumas. Tentando esquecer que eu tinha mentido em sua cara. Que eu tinha roubado seu dinheiro inúmeras vezes. Tentando esquecer os meus porres homéricos. Os cheques voadores. Os telefonemas anônimos. As namoradas anônimas. Os telefonemas das namoradas que eu tinha que manter no anonimato.
Eu era uma estranha para ela. Para todos eles. Eles e seu mundinho de julgamentos. Sempre desconfiados. Sempre paranóicos.
Aquela diversão histérica me incomodava. Eu não estava feliz em voltar para casa. Eu queria me manter invisível. Mas todos vinham me cumprimentar por estar “começando de novo”.
Quantas vezes terei que “começar de novo”?
---- Mãe, onde é a parte da mesa onde ficam os perdedores?
Putz! Eu não queria “recomeçar”! Não estava disposta a ter uma nova chance. Não queria ser parabenizada por um recomeço que eu não conseguia enxergar. Meses em um manicômio. Meses em uma cela cheia de lunáticos e eu tinha que demonstrar um equilíbrio instantâneo. Não! Eu continuava desequilibrada. E não queria forçar um aparente equilíbrio.
Meu mundo é uma ostra.
---- Okay. Vocês venceram! Vou tatuar “Madre Tereza de Calcutá” na testa para vocês! Satisfeitos?
---- Que mesa linda! Que jantar lindo! Vamos todos sorrir ao posar para as fotos do natal, okay? Precisamos destas recordações. Colocá-las em um álbum lindamente ornamentado.
Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei.
Sim. Eu não posso considerar a minha vida com curiosidade subjetiva o tempo inteiro. Tenho de viver a minha vida. Ela é a única que terei. Mas como viver a minha vida neste baile de máscaras. Neste “barco de luxo” naufragado?
----- Ah! Vocês não têm idéia de como era solitário viver naquela cela enquanto todos voltavam para o seu mundinho ordinário!
----- Você acha que o seu sofrimento é a coisa mais importante do mundo! Ah! Como você evoluiu no seu sofrimento!
----- Ahhhhhhh! Quem disse que eu penso desta forma! Ahhhh! Não! Eu não evoluí no meu sofrimento. Continuo amando. Sofrendo. Sangrando.
----- Eu quero sangrar até secar. Entendeu? E não estou pedindo para serem “leais” ao meu sofrimento. Não sofro por modismo. Sofro porque não saberia viver de outra forma. Algumas pessoas nascem com esta insígnia. É letal. Eu sei. É genético. Não sei. Sei que está em mim. Esta dor maldita está em mim. Esta angústia fedida está em mim e eu simplesmente não sei como me livrar dela.
----- Você nunca está feliz, mãe. Ao menos que eu esteja em algum tipo de situação desesperadora. Você não sabe o que fazer comigo ao menos que eu esteja em crise.
----- As pessoas te alertaram mãe. Eu era uma drogada. Uma louca viciada em drogas. Eu era uma chapada que vivia fora da realidade. Será que você não notava que os frascos de perfume que eu borrifava eram para esconder o cheiro da maconha?
----- Mãe, nós somos crucificados pelas próprias limitações. Nossas escolhas cegas não podem ser mudadas. Tornam-se irrevogáveis. Você teve suas chances. Não soube aproveitá-las. Chafurdada no “pecado original”! Mãe, eu perdi toda a alegria engaiolada neste quarto. Neste quarto minha dor crônica de viver se torna mais suave. Neste quarto eu sou meio-resolvida. Meio-desesperada. Lá fora os pensamentos me rondam como demônios. Cada pensamento é um inferno. Mãe, eu só quero voltar para casa. Eu só quero retornar ao útero. Eu só quero ver o mundo bater uma porta atrás da outra na minha cara e me manter anestesiada.
----- Eu vou ligar para sua médica. Ela precisa saber o que está acontecendo.
----- Todos na casa estão me vendo como se eu fosse uma visitante sociopata.
O que vocês querem que eu faça? Ponha fogo na casa?
----- Adoraria quebrar sua empáfia!
----- Who I have to be now! É verdade. Eu fui um pesadelo. Você foi uma santa. Mas desculpa. Mesmo assim eu não estou satisfeita em estar aqui com vocês.
Tuesday, July 15, 2008
Postagem sem título
Numa sala imersa na escuridão, repentinamente iluminada por um facho de luz, Sarah, entre os dedos um cigarro de filtro vermelho, dominada por uma respiração abafada, silêncios prolongados e uma voz reticente, desvenda sua tensiva poesia.
No centro da sala me comporto como uma estátua imóvel, que, no entanto fala, respira e contempla atônita, ao som das notas frias de Ian Curtis, aquelas palavras vindas do nada, que se propagam até retornar ao vazio, numa pluralidade de sentidos que me inflama a alma.
Enigmática, Sarah diz estar escrevendo uma peça intitulada: 04h48 psicose, sobre uma depressão psicótica e o que acontece ao espírito de uma pessoa quando desaparecem completamente as barreiras distinguindo a realidade das diversas formas de imaginação. Tão bem que você não faz mais diferença entre sua vida sonhada e sua vida acordada.
Minha mente é polarizada por um misticismo caótico. Um universo de autênticos devaneios, com santos modelados à argila, dançando como deuses, envoltos em uma atmosfera sombria, surreal, onde uma penumbra deslumbrante e irrepreensível completa o ambiente.
A imagem é desfeita.
Kane começa a divagar sobre a peça, e prontamente sou acometida por um nó na garganta. Verdadeiros cataclismos internos inundam minha mente. Preciso de algo que abrande meus sentidos, estou sufocando. Ela me oferece uma dose de bebida. Um único gole, a bebida queima o estômago, a boca subitamente ganha um gosto amargo, e os pensamentos não acompanham as notas de Ian Curtis. Agora meus ouvidos estão totalmente voltados para Sarah, suas frases soltas, sua lucidez distorcida.
Às 04h48 eu não falarei mais (...). Às 04h48, happy hour. Quando a obscuridade faz sua visita. Quente obscuridade que banha meus olhos. (...) Às 04h48, quando a desesperança fizer sua visita, eu me enforcarei ao som do sopro do meu amante. Anuncia secamente, através de frases soltas, mescladas a versos soltos, diálogos e ritmos.
Um silêncio perturbador permeia o ambiente e eu não consigo vislumbrar nada através dos meus olhos, apenas uma latente escuridão.
Irremovível como uma pintura no centro da sala, acendo um cigarro e uma nova dose de bebida entorpece minha imaginação.
Um breve hiato criativo. Seus olhos parecem repousar sobre o vazio, revelam temor e uma angústia que me faz doer os ossos.
Durante toda a noite Sarah parece oscilar; morta viva, morta viva. Recosto meu rosto pálido sobre os lençóis que envolvem a poltrona. Eles se mostram opressivos, tal qual o beijo de um devasso.
O meu corpo em brasas. O conhaque parece fazer efeito.
“Morrer é uma arte, como tudo mais. Nisso sou excepcional”. Anuncia Sylvia Plath. Sinto um soco no estômago.
Eu quero morrer, rapidamente, mergulhada em minha própria angústia, em meu próprio desespero.
Reticente, quase monossilábica, Sarah ratifica não ter desejo nenhum de morte. Afinal, nenhum suicida nunca teve.
“Escrevo para os mortos, aqueles que não são nascidos”.
Ardo e me viro. Cinzas. Derreto-me em um grito.
Monday, June 30, 2008
O sangue é a linguagem do amor
Seu desejo era o silêncio. O silêncio intercalado entre o mistério e o vazio.
Durante horas permaneceu calada, dominada por um êxtase velado e pelos liames de uma profunda ligação amorosa, onde omitia o concreto, e sublinhava as entrelinhas do sublime.
A redoma de silêncio é despedaçada.
O lustre vermelho e a máquina de escrever sobre a escrivaninha do quarto imprimiam luz e sonoridade ao ambiente cinzento, onde sua face pálida assumia expressões fleumáticas.
O desejo inviolável oscila entre o real e o imaginário.
Manhã de sábado.
Não conseguia manter um vínculo real com as ruas, onde corpos chamuscados por um prazer descartável percorriam aflitos pequenos espaços nas areias das praias, onde todos pareciam à mercê do vermelho-paixão, da troca de fluídos, da satisfação primária dos desejos carnais. Ela estava sozinha, perdida entre pontes do sofrer sufocado, e reticências da volúpia impetrante.
A presença do Outro era vital, atormentava sua libido, incorporava vida a via crucis do seu corpo tímido, inoculando doses de veneno prostituído às escrituras íntimas do seu corpo em chamas.
O Outro aparece sob as vestes de um “Dom Ruan de saias”, provocando uma visível distorção de gestos, e disritmia de sensações, desfazendo sua expressão fleumática, reacendendo sua vontade de interseção carnal
Debruçada sobre a janela, contempla uma pena que suavemente desliza entre as folhas secas das árvores. Seu corpo não mais lhe pertencia, era propriedade exclusiva do Outro. Seus pensamentos foram suprimidos pelo desejo de exceder os limites da experiência possível.
Um cigarro aceso e um olhar traiçoeiro. Ela se esquiva sobre o leito, e o Outro mostra indícios de que irá desenhá-la.
Uma folha em branco, alguns rabiscos. O desenho logo é descartado, e Ele beija seu rosto subtraindo sua alma através de movimentos circulares, onde o êxtase atinge seu ponto nevrálgico quando “perfura” sua boca.
Duelo de titãs. O sol desacelera a chegada da noite. Linhas quentes invadem a sala. Ela prefere eternizar o milagre da transcendência entorpecida pelo calor da noite.
No quarto, onde luzes apagadas e velas acesas abrasavam os corpos, dominados por um ritual pagão, intercaladas por uma volúpia gritante, ela pede ao Outro que perfure sua vagina com um objeto cortante.
Absorvida por um olhar distante, entrecruzado pela loucura intocável da alma, nas mãos um tubo metálico, suplica ao Outro que a faça gemer de prazer.
O sangue vermelho contrasta sua pele alva, escorrendo por entre as pernas.
Nascem rosas do seu útero.
Catatônico, o Outro observa em seu rosto uma inebriante sensação de alívio.
Chorando copiosamente, suplica para que faça o sangue estancar.
Sem nenhum traço de remorso, e indiferente à dor, ela enfatiza que o sangue é a linguagem do amor.
O quarto paraíso
A cidadezinha do pequeno vilarejo era dominada por casas com telhados angulares, onde burgueses tranqüilos contemplavam a paisagem campestre, realçada por árvores caudalosas, e cedros que imprimiam ao ambiente as digitais da melancolia e do desespero.
Marta, entre ruídos abafados de idéias e pensamentos secretos, atribuía uma forte tensão à sua própria vida, denunciada pela disritmia das suas ações e seus delírios recorrentes.
Sua íris azul revelava um notável destemor, tonificada por uma loucura camuflada, visível apenas em pequenos gestos, pois suas atitudes eram pautadas por uma frívola e articulada discrição.
Era dona de longos diários. Escrevia para se sentir viva, para se libertar do ócio e da solidão criativa, embora preferisse ser apenas aceita.
Seus textos eram fortes, suas idéias eram permeadas por uma mutação corrosiva, revelavam a precariedade da existência, denunciava o nomadismo da consciência, as agonias do ser, a vontade inquebrantável da desagregação, como se cada palavra escondesse a certeza secreta de um ritmo de feitiçaria, como se, de cada linha, retirasse uma gota de sangue negro.
Amordaçada em seu quarto, porém em uma liberdade de sentidos que lhe fascinava o espírito, inclinava o pensamento para um universo distante, que ela costumava chamar “o quarto paraíso”.
Santos de barro, a voz de Mário Lanza, um silêncio leve e cinzento, linhas luminosas secas e velozes.
Abria uma vala, Heloísa entrava.
O quarto paraíso parecia completo.
Mas precisava morrer para ter uma resposta. Precisava da morte para sentir a frescura morna da terra, e o cheiro das plantas. Precisava mergulhar na escuridão para apreciar a noite.
Voltou-se ao banco onde Heloísa, sentada, mergulhava os olhos sonolentos no chão. Ela jamais a desapontava. Juntas, pressentiam que precisavam arquitetar um plano ameaçador.
Subitamente os olhos castanhos de Heloísa pressentiram a morbidez de Marta. Atenta a cada palavra, riu alto com veemência, acenando com um sonoro sim para a expressão atormentada da amiga, que revelava uma vontade apressada, um desejo incontrolável.
Desaparecer, este era o plano.
Sunday, June 22, 2008
It is cold inside
A curvatura do rio era íngreme. Os meandros desaguavam em um leito soturno. Tudo era dor.
A pele era um reinado poliforme de figuras distorcidas, um réquiem, com notas frias e impalpáveis.
Existe uma cruz em sua vagina que a divide em dois pedaços, mutilados e amorfos. O corpo é insólito.
Os fotogramas da sua alma demonstram que Esther é um negativo de si mesmo. A negação da criação. Mergulhada em um abismo de dor indigna, infecta, diz um não proeminente à sua própria constituição física.
A superfície da víscera oca. Uma sinfonia de Mozart.
Quando a obscuridade quente banha seus olhos, a víscera oca se torna um paroxítono. Um crescendo de sons disformes, incompreensíveis.
A vida sonhada é melhor que a vida acordada.
Os ansiolíticos amortecem seu corpo, o tornam estático, com traços de sórdida mudez. Apenas sons onomatopéicos, surgidos do nada, oriundos do topo, em profusão contínua em direção ao poço.
Ter um corpo mutilado significa ter uma alma em uníssono vibrante, com cores fortes, imagens polifônico.
A mão de Nosferatu persegue Esther. Esta terceira mão são os fragmentos despedaçados de sangue morno. A angústia viva.
Angústia é o excesso de voz entupida.
Os ansiolíticos causam morte. Uma morte peremptória. Sucessivas mortes.
Seu calvário, seu palácio. O excesso, sua lucidez. O amor é seu desespero.
Esther e seus vômitos de desespero mudo
Os estilhaços de vidro, o confronto da sua imagem com o espelho a faz ter pesadelos.
A morbidez da transcendência.
A vontade inquebrantável da desagregação.
Existe um paraíso artificial que a petrifica. Uma vida sem nome, onde o amor é apenas uma miragem.
Cecília, uma imagem. Pele alva, fios de ouro. Esther é mergulhada numa liberdade de sentidos. Seu corpo ganha um prazer genuíno. Orgasmos múltiplos.
Esther dorme embalada pela imagem aurática de Cecília.
Cecília, um ser celeste. Uma bailarina que carrega santuários mitológicos na cabeça, flutuando por entre - lugares, olhando para os arranha-céus da cidade com a curiosidade de um ser que acabara de nascer.
Um beijo e um olhar no espelho. A simbiose entre as duas mulheres permitia uma confluência de sentidos. A intercalação. O olhar duplo. O olhar único.
Os passos lentos e poéticos de Cecília, sempre à meia luz, fazem da cidade um lugar cheio de vida quimérica.
Os jardins esquecidos, os esgotos fétidos se tornam palácios cheios de vida e sabedoria.
O olhar de Cecília, um ritmo de feitiçaria.
As letras no papel impresso começam a perder nitidez.
Os ansiolíticos invadem o cérebro de Esther.
Overdose de vida
Dominada por uma palidez cadavérica, como se estivesse envolta em um grande capuz branco, Sylvia Plath se mostra refém do próprio desespero, mergulhada em seu esgoto de mágoas.
Amordaçada, sob pontes entre o sofrer e o pecado, denuncia viver entre o martírio e a morte.
Inglaterra, década de sessenta.
Londres é dominada por um inverno rigoroso.
Frêmitos.
Alguém parece chamar-lhe a porta. Atônita, enlaçada por um olhar sombrio e penetrante, dirige-se até o jardim. O jardim se mostra vago, incompleto e escurecido, dominado por várias roseiras e cedros que exalam um odor cinza, todos cobertos de neve.
O branco contrasta o negro. A lua, um grande capuz embranquecido, ilumina palidamente o cenário.
Sylvia finalmente abre a porta. Um jovem, dono de uma voz suave e aureolada por uma profunda tristeza, lança um olhar fixo para Sylvia. Seria capaz de lhe roubar os pensamentos.
Intrigada, Plath questiona a razão da sua visita, e convida o jovem para tomar um chá.
A noite pousa lentamente, inundando a terra de amargura.
Mergulhados em uma latente escuridão, Sylvia e o jovem, este observa uma coroa um pouco acima da cabeça da imagem da Virgem, com exatamente nove estrelas, sendo que uma delas estava apagada.
Ao som de Maria Callas, “Ah Bello a mi Ritorna”, horas ardentes, profundas e lentas, prevêem uma noite de volúpias.
A “chama” mescla-se a “neve branca”, um beijo ardente sela o inevitável, e os corpos se entrelaçam. Sylvia pousa sua cabeça, tão cheia de quimeras, no corpo quente do jovem, que retribui o gesto com beijos ardentes.
Caem folhas mortas sobre o jardim.
O cenário externo, totalmente angustiante, integralmente sombreado, e carregado de uma evasão melancólica, contrasta com o interior da casa, um ambiente onde a volúpia é impetrante.
“Tosca és um Buon Falco”, novamente Maria Callas, agora intercalada por breves versos, que o jovem sussurra nos ouvidos de Plath.
A melancolia assola a poeta, que atribui à noite de volúpias um desfecho memorável:
“Acredito que existe um lugar,
Onde as almas aflitas vagam,
Sob o peso da própria tristeza,
Esperando a hora certa de acertar,
De corrigir o que está errado,
Só então, podem reencontrar,
Aqueles que realmente amam,
Às vezes um corvo indica um caminho,
Por que às vezes, o “Amor é mais forte que a morte”.
Monday, May 05, 2008
Chagas de um fim de noite
A sua aptidão para contos é notável.
Nas mesas de bares, entre parceiros substituíveis, costuma citar Proust, diz já ter lido “Os signos”, e também Kafka, afirma enfática, que já leu tudo sobre o homem dos subterrâneos.
Contagia a todos com seu humor ácido, sua descrença, sua paixão por Dostoievski, seu entusiasmo com suas obras. É incrível como a cada leitura do russo descobre uma nova certeza, dissonante do universo sistemático no qual se aprofundara durante dois anos, o escritório de advocacia na Avenida Carlos Lacerda.
Olívia, movida por uma necessidade latente de dilaceramento com o universo que tanto despreza; a fumaça de caminhões, o óleo derramado sobre as calçadas, memorandos, processos, ofícios, mendigos dizendo Jesus te abençoe, busca inspiração em um universo mortuário.
Olhando o céu de um ambiente fúnebre, percorre a abóbada esquadrinhando cada um dos seus corpos celestes. Vislumbrada com a penumbra, percebe que o infinito recai sobre nós como uma sentença de vida eterna. As nuvens parecem inundá-la de certo ardor da víscera oca, enfatizando misticamente suas estranhas liturgias.
Instintivamente, ela sente a lua estreitar laços de afetividade. Tem um suspiro profundo, quase salutar.
Atônita, percorre os corredores do cemitério olhando sempre em direção unívoca, o céu e toda sua amplitude, seus mistérios indizíveis e pornográficos.
Pinturas de Bacon, pensamentos persecutórios, imagens sinistras e obscuras. No céu visualiza demônios e anjos crucificados.
As flores matizam o tempo com um odor lilás. O vento forte e as folhas secas pendem das árvores que ilustram a paisagem do cemitério.
Desesperada, fotografa cada lápide, e se sente aprisionada nos subterfúgios e obscuros guetos da mente.
Olívia tem um surto psicótico.
Teria finalmente se libertado do calabouço psicológico criado por anos de solidão? Seria aquele cenário fictício?
Os limites entre a realidade e os delírios de uma mente psicótica teriam se entrelaçado.
Era fato, não conseguia mais discernir entre a razão e a loucura.
Volta para casa. Novamente, Olívia está mergulhada em seu esgoto imundo, a sua casa, um emaranhado de livros de filosofia, comida podre, seringas e latas de bebida, trazidas ou não por amantes eventuais.
Recorre à morfina. Sente uma forte pulsação, uma sensação de prazer que só a química lhe proporciona.
Olívia, a genial estudante de filosofia, a amante das artes, o sonho de consumo dos garotos do meio oeste, ávidos por minutos da sua preciosa atenção, não sabe se terá forças para resistir em meio a seus delírios, seus pensamentos díspares.
Visualiza com a clareza de um vidente seu início costurado ao fim, agonizando, com as pálpebras frias e escurecidas, em meio a mausoléus de escuridão e tristeza.
Mergulhada em sua própria loucura, ao som de She`s lost Control, do Ian Curtis, olha fixamente o relógio. São 04h48. Raios de sol penetram a janela do seu quarto. A escuridão se despede de Olívia, ela se sente traída.
Atormentada, se mostra indiferente ao próprio corpo, perfurando as veias com uma navalha.
O sangue brota ininterruptamente. O vermelho contrasta com sua pele branca, e rapidamente uma enorme poça se forma no quarto.
Sozinha, sente a vida em uma inevitável despedida. Porém, esboça um cálido sorriso. A morte a ampara em seus braços, e juntas, elas se distanciam aos dissabores a que Olívia fora submetida. Embarcam em um mal de azul anil e resplandecente.
Saturday, May 03, 2008
O inferno somos nós mesmos
Uma cortina de tule translúcida e metálica, com uma minutagem aleatória, ilumina o cenário tosco, como se estivesse a registrar momentos de uma existência onde a arte se confunde com uma busca incessante pela dor.
Camille, um gênio escarnecido pela sua própria época, parece “fabricar” a dor em suas esculturas, “embriagar-se” dela ao custo da própria lucidez e da própria vida.
Suas obras são uma espécie de “ metáfora musical “ do inconsciente, denunciam uma “sublimação reprimida”, funcionam como porta-voz de uma artista que encarnou o mito do herói trágico e cuja existência resume-se a sombra de um amor incendiante, numa sociedade que a asfixiava inoculando-lhe a vontade demoníaca de transcendência , metaforicamente representada em suas inúmeras esculturas.
O cenário é tosco, deprimente. Um ateliê na Rua Notre-Dame-des-Champ, numa Paris dos anos 30, onde as mulheres pareciam estar reservadas a um bom casamento com algum ilustre monsieur.
Camille, num ritual pagão, parece exorcizar seus demônios ao sentir suas mãos criarem formas, imagens. Trabalha com a precisão de um ourives, e tal qual uma feiticeira, parece roubar a alma dos que se predispunham a missão honrosa de servirem como modelo para suas esculturas.
Suas obras parecem revelar um “matrimônio” entre céu e inferno, suas esculturas são dotadas de uma vida que lateja, uma solidão pulsante, como se estivessem a deflagrar a completa miséria em que viva a artista, um cubículo onde o espírito de Rodin rondava-lhe os pensamentos, levando-a a um intermitente processo de loucura, assolada apenas pela presença dos gatos que pareciam multiplicar-se, da sujeira visível em todos os cantos, do barro e mármore que serviam de esteio para seu ofício.
Antonin Artaud, célebre escritor francês, costuma dizer; “eu sou aquele que, para ser, deve fustigar o que me é inato”.
Camille Claudel, sua necessidade latente de produzir, parece seguir fielmente a velha máxima de que “o inferno somos nós mesmos.” Seu ritmo é frenético, a estrada do excesso leva Camille ao palácio da sabedoria e do exílio, onde os mártires parecem andar de mãos dadas e sua alma é pura luz imersa em sombras
A purificação presente em seus trabalhos, a loucura intermitente que a assola vertiginosamente, são propulsores de uma intensa produção, 'La Valse', 'La Vague’, 'Les Causeuses', 'Paul Claudel à trente sept ans', que, no entanto parece não encher os olhos da conservadora sociedade parisiense, que a rotula de indecente, profana e louca.
Camille, o gênio esquecido e que padece na “terra da catástrofe” parece viver numa oscilante interseção entre a altitude de sonhos e a opacidade e defasagem de uma sociedade cruel, se mostrando dilacerada, fragmentada ao percorrer a estrada da dissolução. Contudo, as conseqüências sofridas pelo seu corpo e mente denuncia a fragilidade de quem aspirou ao sublime e que encontrou na arte a razão da sua própria vida.
Tosca homenagem a Carol, alguém a quem admiro e cuja ausência me faz dor os ossos.
Sunday, April 27, 2008
Daniel
Com quem lamentar que sua vida o levasse a uma estrada cada vez mais estreita? Quem há de compreender suas noites insones, seu flerte com o suicídio?
Ele era livre, e poderia adejar, para dentro e para fora da prisão dele, por mais que acreditasse que seu porto seguro era a sua própria doença, o medo.
Tinha olhos que fitavam o universo, mas olhava para dentro, como se estivesse a ocultar um tesouro oculto.
Era preciso acreditar ser possível ver de longe, embora muitas vezes aquele garoto acreditasse que a gravidade da sua doença o impedisse de ver o infinito, seus mistérios.
Por mais que tivesse um sólido físico, existia nele algo de não substancial, como se pudéssemos passar as mãos por entre seu corpo, quebrando-o em uma infinidade de corpúsculos menores.
Ele tinha várias vidas. Era vários Outros. Deixava-se ser. Era aberto ao novo com a lucidez de um guru, com a sabedoria vinda de outras eras. Ele era o João, a Maria, o Fellini e o Chico. Era o olhar sobre a morte com a doçura de um ser celeste. Era o olhar sobre a pena que levemente observava deslizando sobre a eletricidade do vento. Era luz e trevas.
Desejava a dor, ansiava pelo sofrimento. Este era o seu desafio, o seu calvário e a sua redenção; conquistar o palco prescindia estender-se sob a cruz de malta.
O que ele não entendia é que não precisava anular sua existência para se estender sobre corpo e alma sobre seus sonhos.
Ele é o físico e o odontólogo, o matemático e o narciso, o anarquista e o aristocrata, a vaidade e a mendicância, o luxo e o lixo. Ele pode ser. Mas pode ser sofrendo, pode ser amando, pode ser sonhando, pode ser de várias maneiras.
A sua euforia e o seu olhar curioso sob o que perscruta é dele. Não é do outro. Ele é ele, é o todo.
Aminiótico.
A porta está estendida, bem ali, à sua frente.
Os mártires andam de mãos dadas, mas são crucificados sozinhos.
A estrada do excesso o levará ao palácio da sabedoria.
Thursday, April 24, 2008
Cissa
You are the lady that is trying to go across the river, with nice shoes, and out of a sudden , as if you were taken by some mysterious feeling of happiness. Interior happiness, just says, as loud as you can:
Friday, February 22, 2008
Diathesis
I am sitting in the chair, writing, in agony. A demon is pinning me there, fucking my head.
Abraxas, he says. I am Abraxas, the demon of lies.
I will tell you about lies; there are white lies, and black lies, and many shades of grey lies. But, some lies are justified, lies told out of kindness, lies that preserve your dignity, lies that spare pain.
In addition to my heart, there are some small organs I want to give to you; glands, sweetbreads, variety meats.
Cissa, for you my heart ripped from my chest. Eviscerated I am and if I could I would plunge my fingers through my chest, rip out my heart, and give it to you, a pulpy mass of morbid diathesis.
Diathesis it is like a susceptibility to disease. It is like all those parts of me there are susceptible to invasion. But, what good would it do to offer Cissa a pile of sick meat?
I don´t know. I just don´t want to lie.